Depois de quase 18 anos na Globo, Lázaro Ramos foi um dos grandes nomes a deixar a emissora e fazer parte de uma migração de peso para gigantes do streaming, que parecem apostar cada vez mais na produção nacional. Ainda na série "Mister Brau" e em "Medida Provisória", filme que ele dirige e enfrenta enrosco para ser lançado em circuito comercial, o artista conta que começou a ver seu trabalho num híbrido entre consultoria, atuação e direção - o que o levou a desejar um cargo mais polivalente do que o que exercia na Globo.
"Fiquei em conflito durante o ano, em conversas constantes com a Globo, porque sou apaixonado pelo trabalho que tive lá o tempo todo", diz o ator em entrevista durante as gravações de "Um Ano Inesquecível - Outono", sua primeira direção para um serviço de streaming. Agora Ramos tem um contrato de exclusividade com o Amazon Prime Video por três anos. Na empresa, conta, encontrou a possibilidade de desenvolver seus projetos em funções distintas.
O longa que será lançado em 2022 é o primeiro deles. Faz parte de uma franquia que terá outros quatro filmes, todos dirigidos por profissionais diferentes e baseados no livro homônimo de contos das autoras Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira e Babi Dewet.
Trata-se de um musical rodado em São Paulo, com os jovens protagonistas Anna Júlia e João Paulo vivendo um romance embaixo da chuva na avenida Paulista, no vão do Masp e em outros cenários típicos da cidade. "Há um grande desafio que é entender o que é um musical desse tamanho feito no Brasil. Demorou um tempo para entender como conceituar isso", afirma o diretor, que já dirigiu outros dois musicais para o teatro. O País, afinal, acompanhou a enxurrada de musicais, principalmente americanos, que chegaram via streaming nos últimos anos e se tornaram aposta das grandes empresas da área.
"Há algumas composições inéditas, privilegiando a música feita no Brasil sem preconceito com nenhum gênero. Da música pop ao samba, pegando várias gerações de cantores e compositores que marcaram a história da nossa música", diz ele, que aponta nomes como Cassiano, Péricles, Olodum e Los Hermanos como autores de algumas das canções selecionadas.
Mas o que marca uma espécie de originalidade brasileira na produção, para ele, é a assinatura negra. "Não são músicas apenas de compositores negros, de bandas negras, mas o protagonismo é negro. Isso traz uma força que a gente tem na nossa música, inevitavelmente."
Essa assinatura também está no elenco e na equipe de "Um Ano Inesquecível - Outono". "Tenho 22 anos e esse é o primeiro grande projeto de que participo onde a maioria do elenco é negro", conta Gabz, que interpreta a protagonista.
"É algo que já deveria ter acontecido há muito tempo, porque o nosso país tem maioria negra. Quando o audiovisual não retrata isso, você não conversa nem com o seu tempo e nem com o seu país."
Lucas Leto, que vive João Paulo no longa, concorda. "Penso que a gente está caminhando para o futuro, onde a gente já debateu e muitos abriram caminhos para a gente conseguir falar de coisa nova", conta o ator.
Ramos vê mudanças em direção a equipes mais diversas olhando em retrospecto, mas avalia que não se chegou ainda aonde é possível chegar. E, de maneira bastante pragmática, o diretor avalia que essa busca de empresas de streaming e TV por diversidade vem de uma demanda de mercado.
"Estão pegando esse quinhão que durante muito tempo foi relegado, mas que é um mercado importantíssimo e gigantesco. A gente fala como se fosse só uma demanda social apenas, mas não, é também um merecimento desses profissionais todos que existem e uma demanda do mercado."