O poeta amazonense Thiago de Mello morreu dormindo, aos 95 anos, em Manaus, na madrugada desta sexta-feira (14). Nas últimas sete décadas, ele cumpriu o ideal romântico de viver como poeta, no equilíbrio de amores exacerbados, fidelidade à vocação de escritor, amizades intensas e espírito de viajante.
Desde seu exílio político, nos anos 1960, era um dos nomes mais conhecidos da literatura brasileira na América Latina, estreitando amizade com grandes escritores de seu tempo, de Pablo Neruda a Julio Cortázar, de Jorge Luis Borges a Nicanor Parra, de Alejo Carpentier a Gabriel García Márquez, que o chamou de "guru grande".
"Silêncio e Palavra", de 1951, e "Narciso Cego", de 1952, marcaram sua entrada no mundo literário e firmaram sua voz poética afinada com a vertente lírica e discursiva. "Poetas principais de nossa literatura moderna, estou tentado a pedir um lugar, ao vosso lado, para o poeta de 'Silêncio e Palavra'. Com 26 anos e um só livro publicado, o senhor Thiago de Mello bem demonstra, todavia, que já se acha em condições de se situar na primeira linha da nossa poesia contemporânea", saudou, à época, o crítico Álvaro Lins.
Em sua poesia de juventude, sem se aferrar ao receituário da Geração de 45, esteve próximo de especulações metafísicas. "Cego assim, não me decifro./ E o imaginar-me sonhado/ não me completa: a ganância/ de ser-me inteiro prossegue." "A Lenda da Rosa", de 1956, lançado pela prestigiosa coleção Rubaiyat, da editora José Olympio, talvez seja o seu mais virtuoso e esquecido livro.
Poeta e diplomata, Thiago de Mello esteve à frente das edições Hipocampo, criada com seu amigo Geir Campos, nos anos 1950. Em dois anos, lançou obras de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Paulo Mendes Campos e Guimarães Rosa.
Na década de 1960, ao servir como adido cultural em Santiago, virou uma personalidade do mundo literário chileno, muito presente no círculo de Pablo Neruda, seu amigo íntimo. Neruda não só virou seu tradutor, mas entregou a ele as chaves de sua residência na capital, a mítica La Chascona. Nela, Mello acolheu exilados brasileiros e ofereceu memoráveis saraus poéticos. Seus contemporâneos nunca se esqueceriam do festival de pipas que promoveu com centenas de crianças de Santiago.
"Thiago, a Santiago, como un vago mago,/ has encantado en canto y poesía./ Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,/ un volantin de tu pajarería", celebrou Neruda.
Em 31 de março de 1964, na presença de Neruda e Salvador Allende, ele acompanhou pelo rádio as notícias do golpe militar no Brasil. "É o primeiro de uma sucessão de outros golpes na América Latina", vaticinou Allende no desfecho da deposição de João Goulart.
Depois de ver as fotos da perseguição aos militantes comunistas Astrojildo Pereira e Gregório Bezerra, Thiago de Mello escreveu seu poema mais conhecido, "Os Estatutos do Homem", traduzido para mais de 30 línguas - no espanhol, seu tradutor é Neruda- e incluído no livro "Faz Escuro Mas Eu Canto", de 1965.
"Fica permitido a qualquer pessoa,/ a qualquer hora da vida,/ o uso do traje branco", diz um dos versos. Ele incorporaria essas palavras à sua indumentária cotidiana, revezando guayaberas brancas presenteadas por Fidel Castro e Pablo Milanés.