Tribuna do Leitor

Desvio de finalidade

Professor Joaquim Eliseo Mendes - Membro Efetivo da ABLetras - cadeira 29
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Devidamente autorizado pelo ilustre amigo e autor dr. Alfredo Enéias Gonçalves D' Abril em aproveitar o título de seu excelente artigo publicado na edição do dia 4 do JC, primeiramente quero parabenizá-lo por abordar com muita propriedade o decantado assunto sobre o prédio da nossa Estação Ferroviária. Digo nossa porque aquele majestoso prédio que infelizmente vem sendo tido como um elefante branco, que está incomodando muitos governantes e políticos locais e traduzindo em linguagem vulgar "ench... o sc", não pode ser considerado como um estorvo pois pertence ao povo, à história, à tradição, à cultura. Percebe-se no ar uma surreal intenção de quanto antes "se livrar" do mesmo para por um fim nesse problema. Que ao meu ver não constitui problema, mas sim uma joia cujo valor ainda não foi estimado. O preclaro amigo abordou o assunto sob o ponto de vista jurídico que é a sua área, ex-delegado de Polícia, promotor público aposentado e ex-ocupante da Secretaria de Assuntos Jurídicos, mas eu pretendo fazê-lo como professor sob a visão da educação e cultura. O tema nosso é o mesmo, a defesa intransigente do abençoado, majestoso e glorioso prédio da Estação Ferroviária e tenho certeza de que as milhares de pessoas que por ele passaram dele se serviram e aqueles que ainda circulam por sua proximidade endossam nossa defesa. Quem embarcou, desembarcou de viagens, acompanhou, passou, ou caminhou pelo mesmo jamais o esqueceu e esquecerá. As baldeações do trem de bitola estreita para o de larga quando se ia para São Paulo, a travessia pelo túnel, os vendedores uniformizados que ofereciam as guloseimas pelas janelas, o restaurante que servia uma rápida, mas gostosa sopa, as pessoas e as moças bonitas que esperavam nas plataformas com seus pais, os viajantes comerciais, o "Banco Real", as fotos ampliadas das paredes, as cabeças fora das janelas tanto nas chegadas como nas partidas. Esse prédio eu o comparo como o primeiro amor, quem por ele passou jamais o esqueceu e esquecerá.

Mesmo que ele, por infeliz decisão, seja demolido ou transferido para a esfera particular desvirtuando o seu aproveitamento como patrimônio público cultural, ele continuará existindo não só na memoria dos que passaram e o conheceram, mas em milhares de fotos históricas. Caro amigo dr. Alfredo, não sei se concorda comigo, mas essa Estação Ferroviária poderá estar para Bauru, respeitadas e consideradas as devidas proporções, assim como o Coliseu está para Roma; a Torre Eiffel e o Museu do Louvre para Paris; a Estátua da Liberdade para Nova Iorque, o Corcovado e o Cristo Redentor para o Rio de Janeiro. Que ele abrigue a Secretaria da Educação, da Cultura, Museu, a Biblioteca Municipal e também a Academia Bauruense de Letras que após 25 anos de sua fundação e ter finalmente recebido da administração anterior uma sede própria, foi desalojada com seu acervo e mobiliário dividido em partes desiguais depositadas e guardadas em vários locais. Não terá mais onde se reunir. Antes de qualquer medida administrativa com base legal, atente-se para outra relíquia que existe ao seu lado e que constitui ponto turístico que é o Museu Ferroviário. Quem não o conhece que procure conhecê-lo. Visitá-lo é efetuar uma viagem ao passado. Indescritível.

Eu e dr. Alfredo D' Abril sabemos que não é fácil sua transformação, sabemos outrossim que no mínimo quatro pontos são necessários: vontade política - projeto - recurso - competência. Se outras cidades muito menores que a nossa conseguiram transformar o seu prédio da estação ferroviária em polo turístico, por que Bauru não conseguirá? Aí está um desafio, o seu destino. Um fato é inegável, o que for feito com ele, transferência, demolição ou transformação marcará um governo na história de Bauru.

Que Deus me conceda vida para ver o seu destino.

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