Articulistas

Toda viagem tem um pouco de escuro

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Um dia, um padre disse o que muitos continuam dizendo: "Tenho feito alguns casamentos, mas, antes da cerimônia, puxo os noivos para um cantinho e lhes pergunto se é isso mesmo que querem. Se pensaram bastante sobre a decisão que estão tomando." E, para pôr ainda mais pressão no dedo da aliança, o padre emenda que o casamento é indissolúvel, ou seja, só acaba quando termina. Ficou meio confuso, percebi, tá redundante. Melhor dizer de outra forma: só acaba quando chega ao fim. Desconfio que não melhorou muito. Enfim, vamos ao que interessa, que é aquilo que o padre disse e eu não estou conseguindo reproduzir: o fim do casamento só deve acontecer com a visita da temida Dona Morte. Afinal, o que Deus uniu, o homem não pode separar. É o que dizem.

Quando li o depoimento do padre, pensei comigo que o parafuso não estava combinando com a porca. Como o sacerdote pode exigir que os noivos assinem embaixo o que em cima ainda não foi escrito? Os pobres pombinhos (por enquanto né?) não podem prometer que se deixarão consumir pelas chamas, se um dia o casamento virar um baita incêndio, desses de bombeiro nenhum pôr defeito. Na doença e na pobreza, tudo bem, mas virar churrasco, aí é demais para qualquer cristão.

Eu sei que tem mais bíblia no pedaço: "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda." Está no Gênesis 2:18. Concordo que existe um subtexto defendendo a lógica de que dois sempre podem mais do que um. Somar, apoiar, incentivar, dividir, multiplicar, qualquer conta que a dois se faça consagra a graça de que amar é compartilhar. Tudo bem, mas acho que devemos ir devagar com o andor. Ainda que sem toda essa pompa bíblica, o anônimo Zé Povinho disse coisa que, invertendo as bolas, merece a mesma consideração: "Antes só do que mal acompanhado." Faz sentido. Mais vale um pássaro voando sozinho do que dois se bicando perigosamente no ar.

A vida é assim, um diz sim, o outro, não. Tese e antítese, a coexistência dos contrários. A tristeza só existe porque conhecemos a alegria; a sensação de frio agradece a de calor; havendo luz, houve escuridão. Então se dois resolvem juntar os trapinhos diante do padre, o ato pode ser uma bênção, mas a desgraça não está fora do radar. Juntar coisas ou pessoas dá nisso, a gente nunca sabe até quando a cola vai aguentar.

No glorioso 21 de setembro de 2018, duas coisas foram juntadas: uma fonte de calor e um imenso saco para recebê-lo. Pronto, inventava-se o balão, o mais velho veículo aéreo da história tecnológica. A humanidade comemorou tão avançado feito e o "homo sapiens" sentiu-se vaidosamente mais "sapiens". Tanto assim que não parou mais de inventar. Dois anos depois, ao atravessar o Canal da Mancha, o mesmo fogo incendiou o mesmo balão e matou os dois tripulantes. É assim, toda viagem tem um pouco de escuro. Se há casais voando em balão de céu azul, outros já se queimaram pelo ar. A vida não gosta de receitas, menos ainda de frases feitas. A vida, meus amigos é uma caixinha de surpresas. Pronto, eu tinha que arrebentar a boca do balão, mais uma merda de frase feita!

 O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

 

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