Tribuna do Leitor

Condenação "ad perpetum" sem o devido processo legal

Maria Cândida Meira Leite
| Tempo de leitura: 3 min

Alguns dias atrás, assisti à notícia veiculada em um jornal local a respeito de uma paciente que tinha sofrido uma cirurgia ginecológica, teve alta, e após alguns dias, passando mal, voltou ao hospital e foi constatado que estava com perfuração intestinal, uma pessoa parente da paciente, foi incisiva e categórica, dizendo mais ou menos isso: que o médico tinha que perder a licença para trabalhar, para que não acontecesse o fato, com outras pessoas.

Sei bem o que é um acidente causada por uma fatalidade em uma cirurgia, pois passei por isso, o acidente que mais me doeu, foi quando a Érica foi extrair o dente do siso, com um cirurgião renomado, honestíssimo, excelente profissional, mas que infelizmente causou parestesia permanente, na metade da língua, lado direito, da minha doce e linda menina (imagine se é difícil para uma pessoa normal, calcule ficar assim, uma criança especial); quando fiz a cirurgia de correção de miopia, lá no passado remoto, fui sorteada também com um resultado não desejado; também vivenciei e sofri, quando minha irmã, ao fazer uma colonoscopia, por acidente, teve seu intestino perfurado, sofremos muito, passamos por momentos difíceis, por medo de perdê-la em razão de uma septicemia, mas graças aos cuidados do mesmo médico que teve a infelicidade de obter esse resultado inesperado e não desejado, ela depois de cirurgia e alguns dias de internação ficou boa.

Reflete comigo: um médico estuda arduamente para curar, salvar vidas, passa uma vida de trabalho e dedicação, deixando família e lazer de lado, para honrar sua profissão, posterga até a sua aposentadoria (quantos médicos aposentados você conhece), para cuidar de seus pacientes, e apesar de tanto empenho e estudo, não é reconhecido, não é valorizado, poucos são os agradecimentos públicos, infelizmente.

Nenhum profissional, seja em qualquer área, quer errar, pense como seria maravilhoso, se todo trabalho desse certo, se não houvesse erros, se não acontecesse acidentes, efeitos não esperados, mas isso ainda não é possível, o ser humano, por mais que busque a perfeição, erra muito; acidentes, falhas de equipamentos contribuem muito para isso.

Em Direito, busca-se, dentro do processo judicial, através de perícias, investigações minuciosas, descobrir se o resultado culposo adverso foi causado por imperícia, imprudência ou negligência, o juiz, mediante as provas nos autos, decide se existe motivo para a condenação, e depois sentencia, mas como o ser humano é passível de erro, existe a possibilidade de recorrer da sentença, para tentar distribuir a Justiça efetivamente.

Todos têm direito de ser julgados dignamente pelos atos praticados, e ninguém deve condenar publicamente um profissional, de qualquer área, sem que exista o devido processo legal, pois depois que as palavras duras, que maculam a vida profissional saem, e fazem os estragos, dificilmente, mesmo sendo provado o contrário posteriormente, a imagem dele nunca mais será a mesma.

Vamos deixar o Direito de lado, e passar para o campo da medicina, quando minha irmã teve o intestino perfurado, procurei a literatura médica e encontrei muitos casos que podem levar a perfuração intestinal não traumática, vários motivos podem contribuir para o evento, como espessamento da parede intestinal, áreas de estenose, fístulas, até medicamentos como anti-inflamatórios e antibióticos, além de outras inúmeras causas.

No caso em tela, essa perfuração pode ter ocorrido após a alta médica e não ter sido em razão da cirurgia, como também pode ter sido causada durante o procedimento, mas mesmo sendo assim, um profissional que se dedicou profundamente, que atendia e realizou o sonho de várias mulheres, que sempre foi um profissional ilibado e muito competente, não merece passar por um constrangimento massacrante como este, o julgamento cabe ao Poder Judiciário, através do devido processo legal, onde se dará espaço, para as acusações, provas e defesas da parte, espero que o Conselho de Medicinal, providencie um ato de desagravo.

A família da paciente, meus sinceros votos de que ela já esteja bem, sei como se sentiram, pois já passei por problema semelhante, mas entendi que acidentes e resultados adversos podem ocorrer a qualquer um, que o desejo do profissional da medicina é curar e não causar dano, pense nisso.

Não sou amiga e nem paciente do médico, só o conheço de nome, mas senti que precisava manifestar meu apoio irrestrito.

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