Laila Garin finaliza um cigarro de tabaco orgânico antes da conversa com o repórter por chamada de vídeo. "Comecei a fumar durante a pesquisa sobre Clarice", diz, em tom de brincadeira. Após a primeira tragada, ela complementa. "Foi um mergulho profundo para entender a escritora, sua protagonista, e o que eu, enquanto atriz, tinha a oferecer nesse trabalho."
As camadas descritas por Garin estão diluídas no musical "A Hora da Estrela ou o Canto de Macabéa", que transpõe para o palco a história do último romance publicado por Clarice Lispector, em 1977, ano de sua morte. A obra, em cartaz no Sesc Santana, zona norte da capital paulista, ganhou versos musicados por Chico César, que compôs 32 músicas inéditas para o espetáculo.
Garin tem papel duplo na peça. Interpreta Macabéa, migrante alagoana pobre que vive marginalizada no Rio de Janeiro. E também a Atriz, personagem que narra a trajetória da protagonista. No livro, essa função cabe ao escritor Rodrigo S.M. "Tem uma metalinguagem dessa Atriz, que se questiona sobre o próprio ofício, mas que vai se afeiçoando a Macabéa."
Garin conta que leu o romance na adolescência, assim como "A Paixão Segundo G.H.", outro clássico da autora. "Mas eu não tinha maturidade para entender. Achava Clarice soturna e melancólica, como de fato era. Mas também vi que seus livros são cheios de vida, de amor e uma noção particular do divino nas pequenas coisas do cotidiano", diz a atriz.
Ela diz que precisou se adaptar à personalidade de Macabéa. "Recentemente, interpretei Elis Regina, Edith Piaf, Joana, de Gota D'Água. São mulheres que gritam. Eu sou uma mulher que tem tônus. Mas ela [Macabéa] não reage, acha que não tem direito a nada. Essa apatia dela nos faz refletir sobre empatia e amor em estado puro."
A atriz também lamenta o fato de o livro, assim como o musical, tratarem de uma exclusão que se mantém. "É a obra mais social da Clarice. Essa é a história dos invisíveis, de uma sociedade que não mudou nada. Basta ver o que aconteceu com Moïse", diz, citando a morte por espancamento do congolês Moïse Kabagambe, no Rio de Janeiro.
No palco, a voz mirrada de Macabéa é soterrada pelas humilhações diárias dos núcleos que compõem a trama - o trabalho, o quarto da pensão e a metrópole -, e também pelos personagens que a acompanham. São eles a colega de escritório Glória, papel Cláudia Ventura, e o namorado Olímpico de Jesus, vivido por Cláudio Gabriel. André Paes Leme assina a direção e adaptação, e Marcelo Caldi a direção musical.
Em alguns momentos, a noção de espetáculo teatral fica totalmente borrada, como se a dramaturgia desse lugar a um show. "É uma espécie de partitura dramatúrgica em que nada está apartado: luz, música, figurino, texto. Um musical feito a muitas mãos", comenta Andréa Alves, proprietária da Sarau, idealizadora do projeto e que é reconhecida por inovar no gênero, com trabalhos como "Elza" e "Gota D'Água [A Seco]".