A imensa cratera que cortou ao meio o prolongamento da av. Rodrigues Alves, no último domingo (30), em Bauru, não é obra do acaso, assim como não foi um acidente a abertura de diversas erosões na cidade nestes últimos dias e a interdição de dezenas de imóveis devido às chuvas intensas. Também não podem ser classificadas como fatalidade a morte de 29 pessoas em municípios paulistas, incluindo Jaú, em razão de alagamentos e deslizamentos de terra.
Todas estas ocorrências têm uma única origem: a ocupação desordenada do espaço urbano, processo histórico que deve cobrar um preço cada vez mais alto da população, já que, em decorrência das mudanças climáticas, a expectativa é de que eventos meteorológicos extremos, como a chuva de 150 milímetros registrada em Bauru naquele domingo, se tornem cada vez mais frequentes. E as soluções, em grande medida, serão apenas paliativas, ou seja, para minimizar - e não sanar definitivamente - os impactos destas ocorrências, conforme apontam especialistas ouvidos pelo JC.
No município, felizmente, os processos de desfavelamento reduziram significativamente o número de famílias vivendo em áreas de risco. Porém, loteamentos antigos, aprovados há 40 anos ou mais, foram consolidados sem a observância de leis ambientais que regem as novas ocupações, hoje, e sem a infraestrutura mínima de redes de galerias também exigida atualmente.
Assim, grandes áreas da cidade ficaram completamente impermeabilizadas, sem capacidade de absorver a chuva, o que seria fundamental para diminuir a intensidade das inundações, a velocidade das correntezas e seu potencial de destruição. "É normal chover em janeiro, mas a frequência de precipitações intensas está aumentando e as cidades precisarão se adaptar a estas condições. Caso contrário, viverão em um contínuo atendimento a emergências, situações de calamidades, tragédias e perdas", alerta Jozrael Henriques Rezende, doutor em Ecologia e Recursos Naturais e professor e pesquisador da Faculdade de Tecnologia de Jaú (Fatec).
ESTRATÉGIAS
Ele defende a necessidade urgente de mudar o modelo de desenvolvimento urbano e rural, com estratégias que, mesmo que não resolvam problemas em definitivo, sejam capazes de evitar a perda de vidas humanas e de diminuir prejuízos patrimoniais.
"Há necessidade de monitoramento em tempo real destes eventos meteorológicos e sistemas de alerta eficientes, que permitam evacuar populações de zonas de risco. Daqui para frente, também é preciso mudar o modelo de cidade, com políticas públicas de longo prazo e novos padrões de ocupação do solo que permitam um desenvolvimento urbano sustentável, para que a cidade seja mais resiliente diante destas situações adversas", sustenta ele, que também é presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Tietê-Jacaré.
Como exemplo de obras de engenharia completamente ultrapassadas, Rezende cita o tamponamento do Ribeirão das Flores, que passa sob a av. Nações Unidas, endereço mais conhecido das enchentes de Bauru (leia mais ao lado). Há, ainda, várias áreas loteadas no passado e citadas como problemáticas pela Secretaria Municipal de Obras, como é o caso do bairro Águas Virtuosas e o Jardim Manchester, ambos instalados em Área de Proteção Ambiental (APA) e sem rede de esgoto até hoje.
Outro exemplo é o Rio Bauru, que teve, no passado, o curso d'água constrito com concreto e retificado, com retirada de curvas naturais capazes de amortecer a vazão nos períodos de aumento de volume. Com as últimas chuvas, a erosão na margem do rio fez ruir parte da avenida Nuno de Assis, na altura do Terminal Rodoviário, resultando em transtornos para os motoristas e um futuro prejuízo de R$ 2,5 milhões aos cofres públicos para reparo. "São modelos que não podem se repetir nunca mais", completa o professor.