Sem desfile de Carnaval pelo segundo ano consecutivo em Bauru, profissionais ligados à festa sentem diretamente os impactos não só em fevereiro, mas ao longo dos meses subsequentes. Alguns chegam a perder até 25% de toda a rentabilidade anual e têm até escola de samba entregando o barracão.
É o caso da Mocidade Unida de Vila Falcão que, já em 2020, precisou deixar o local onde ensaiava e montava as alegorias desde 2014. "Entre aluguel, água e luz nós tínhamos um gasto médio de R$ 3 mil por mês. Sem o Carnaval e sem poder realizar eventos ao longo do ano, como feijoadas e almoços, ficou inviável manter essa conta", lamenta Mirian Fernandes, ritmista e responsável pela comunicação da escola.
A escola também acumulou dificuldades financeiras por não conseguir, por exemplo, tocar em eventos. "Nossa bateria fazia casamentos, formaturas. Muitas festas foram canceladas", complementa Mirian.
VITRINE
Já o coreógrafo Tobias Terceiro lamenta não só a queda no faturamento, que chega a 25% no ano, mas principalmente à perda de visibilidade do trabalho. "Quando estou no sambódromo, tem 40 mil pessoas me assistindo. Deixo de ter uma vitrine muito importante. Ao longo do ano, muita gente procura minha escola por causa do Carnaval", conta ele, que é mestre-sala e dono de uma escola de danças populares. Hoje, ele também é carnavalesco do Bloco Primeiro de Agosto e planeja transformá-lo em escola de samba.
ROMBO
"Nós fomos o primeiro setor a parar e seremos o último a voltar. É um rombo muito grande no orçamento", define Gilson Jacintho, carnavalesco da Coroa Imperial da Grande Cidade.
Ele trabalha com decoração há 25 anos, seja Carnaval, Natal, casamentos e eventos. Sem desfile há dois anos, ele viu o faturamento cair 20% ao longo do ano e se viu obrigado a vender 60% do acervo para manter as contas em dia. "O Carnaval é um trabalho que envolve muita gente. Serralheiros, marceneiros, pintores, aderecistas, costureiras... Não é só oba-oba, alimenta muitas bocas e movimenta toda a economia", defende.
ECONOMIA LOCAL
A não realização do carnaval foi uma decisão da Liga das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos de Bauru (Liesb). "Primeiro pela saúde coletiva, depois pelos prejuízos que poderiam ocorrer caso tivéssemos que cancelar perto da data. As pessoas trabalham para depois receber", explica Allison Talon Carlos, presidente da entidade.
Segundo ele, as atividades de escolas e blocos geram 200 empregos diretos e, nos dias de desfile, outras mil pessoas fazem uma renda extra, com vendas de bebidas, comidas e acessórios. Uma movimentação estimada em R$ 3 milhões. "É a nossa maior festa popular, é lazer para muita gente que não tem condições de pagar um espetáculo, então privilegia as camadas mais vulneráveis da população".