Problema crônico de Bauru, a falta de leitos de internação afetava, nesta terça-feira (22), dez moradores da cidade com quadro grave de saúde. Eles precisavam de vagas de UTI, que deveriam ser garantidas pelo governo do Estado, porém, aguardavam na fila, em unidades de pronto atendimento (UPAs) ou no Pronto-Socorro Central (PSC). E há casos, como voltou a ocorrer nos últimos dias, em que o paciente não consegue assegurar a transferência para hospitais públicos nem mesmo com decisão judicial em seu favor.
Segundo dados informados pela Prefeitura Municipal, nesta terça, dos dez doentes que estavam na fila, quatro precisavam de tratamento intensivo na área de neurologia, outros quatro em cardiologia e dois em pneumologia. As duas primeiras especialidades, inclusive, são as que apresentam maior demanda por internação em UTI na cidade. Ainda de acordo com a administração, nenhuma das pessoas na fila tinha diagnóstico positivo ou suspeita de Covid-19.
"A morosidade frente ao esgotamento de oferta de vagas de internação em leitos de UTI pelo Estado faz com que as UPAs e PSC prestem atendimento além do que é de responsabilidade do município e de função destas unidades, ocasionando, muitas vezes, superlotação", afirma a prefeitura, por meio de nota, acrescentando que o tempo de permanência de um paciente nestas unidades deveria ser de, no máximo, 24 horas, conforme a portaria 10/2017, do Ministério da Saúde.
Uma cliente de 46 anos do advogado Edilson Marciano, contudo, esperou por cinco dias na UPA Ipiranga até conseguir transferência para o Hospital Estadual (HE). Com diagnóstico de síndrome respiratória, a mulher deu entrada na UPA em 17 de fevereiro e, mesmo com decisão judicial obtida no dia seguinte, determinando ao Estado a liberação da vaga, teve de esperar até a madrugada desta terça (22).
'NEGLIGÊNCIA'
Porém, a paciente - que é obesa e tem artrite reumatoide - já estava intubada, inconsciente, quando foi levada ao HE. O teste de Covid-19 deu negativo. "O Estado negligencia um direito constitucional sob alegação de falta de leitos. Minha cliente precisava de vaga de UTI desde o dia 17, com quadro grave. Ela segue intubada. Nossa esperança é de que consiga sobreviver e sem sequelas", pontua o advogado.
Questionada sobre a dificuldade para moradores conseguirem vagas de internação em UTI, inclusive com decisão judicial, a Secretaria de Estado da Saúde informou que "a reportagem não forneceu dados dos pacientes para a checagem de cada caso". Justificou, no entanto, que a pandemia impôs novos desafios, com necessidade de concentrar "recursos e esforços na ampliação da assistência aos pacientes com Covid-19".
A pasta afirmou, ainda, que o Estado segue "zelando pela vida e saúde de todos", mantendo atendimentos em outras patologias e "garantindo a continuidade da assistência". Para tanto, informa que a região de Bauru conta com mais de 760 leitos clínicos e cerca de 130 de UTI não exclusivos para Covid-19. Mesmo após solicitação do JC, a secretaria não esclareceu quantas vagas havia na região em fevereiro de 2020, ou seja, quantos leitos para atender outras doenças foram desmobilizados nestes dois anos de pandemia.