Aposentados e com três filhos criados, Hilário Nunes da Silva, 60 anos, e Márcia Bibiana da Silva, 56 anos, já poderiam considerar a vida como missão cumprida. Porém, a vocação falou mais alto e, nos últimos sete anos, eles tornaram-se pais temporários de nada menos 21 outros filhos. Ambos fazem parte do programa Família Acolhedora, projeto que oferece um lar provisório a crianças e adolescentes afastados da convivência familiar por medida judicial. Hoje, além de ajudar diretamente na formação dos pequenos, também encorajam outros a aderirem ao projeto.
Dizer adeus a cada um deles não é fácil, mas a expectativa de felicidade que experimentarão na nova fase, com a outra família, ajuda no processo, conta Márcia, que divide com Hilário as dores e a delícia de integrar a iniciativa. "É um trabalho muito importante. Eles precisam desse afeto. Precisam do colo. Eu beijo a todo o momento. Dormem comigo", comenta, ao reforçar a diferença dos cuidados em um eventual abrigo, onde esse tipo de atenção normalmente carece da mesma intensidade.
"Nessa fase a criança tem mais possibilidade de aprender, de plantar a semente do bem e do amor", acredita Hilário. Ainda jovem, o casal descobriu que não poderia ter filhos biológicos. Então, eles adotaram três crianças, hoje com 27, 25 e 16 anos de idade.
"Mas nós entendemos que ainda tínhamos muita chama, muito amor para continuar doando. Não para adotar, mas de outra forma, para proporcionar uma alegria, um sentimento melhor para crianças que acolhêssemos", define Hilário, que é policial militar aposentado, assim como a esposa. Emocionada e convicta em continuar com a missão, ela conta jamais esquecer cada um dos acolhidos.
COMO FUNCIONA
O programa Família Acolhedora foi implantado em 2011 em Bauru. A Fundação Toledo (Fundato) é a responsável pela execução com recursos repassados pela Prefeitura de Bauru e pela Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes) - as famílias recebem uma ajuda de custo. O objetivo é oferecer amparo, amor e convivência comunitária a crianças e adolescentes afastados momentaneamente da família por medida de proteção, em função de abandono ou situação de risco pessoal e social, conforme prevê o Estatuto da Criança e Adolescentes (ECA).
Atualmente, o programa conta com cerca de 20 famílias habilitadas. Número que precisaria ser maior para dar conta da demanda. De acordo com a supervisora do projeto, Debora Aparecida Baebe, a meta é chegar a pelo menos 30 famílias. Para tanto, uma nova capacitação está com inscrições abertas (leia mais nesta página).
Segundo Debora, a maior dificuldade é quando os candidatos descobrem que o acolhimento é temporário, motivo de várias desistências. "Muitos temem se apegar e não conseguir lidar com a despedida, o adeus. Outros confundem e acham que poderão adotar a criança. Mas o importante é entender que o candidato estará ajudando em um momento muito importante na vida da criança e do adolescente, mesmo que temporariamente", afirma.
Hoje, além da necessidade de ampliação, o programa também precisa de famílias aptas a receber grupos de crianças. "Temos recebido muitos irmãos e nem todos cadastrados têm espaço físico ou disponibilidade para receber mais de uma criança. É importante não separá-las durante um momento de fragilidade", explica Debora.
INCENTIVO
Os acolhimentos podem durar alguns meses ou até mais de um ano. A certeza é que, mais cedo ou mais tarde, chegará a hora de dizer adeus. "Esse momento é o mais importante para nós e para a criança. É um sentimento ambíguo, ficamos felizes pela criança voltar para a família ou ir para a adoção, mas tristes porque ela vai nos deixar. Mas não podemos ser egoístas, temos que pensar nela", explica Hilário.
Ao longo dos anos, o casal tem estimulado outras pessoas a fazerem parte da iniciativa. "Precisamos pensar que fizemos o melhor para a criança, pois ela vai para um lar que a escolheu e tem grandes possibilidades de ser feliz pelo resto da vida. Por que então ter medo de ser temporário? Você vai deixá-la muito mais feliz e completa espiritualmente", diz Hilário.
A recomendação vem de quem coleciona boas recordações ao longo da trajetória. "O amor é um sentimento diferenciado, quanto mais você tem, mais consegue dar. Enquanto tivermos saúde, vamos continuar fazendo esse trabalho", garante.