A hiperglobalização, que se iniciou no ano de 1990, está prestes a acabar. A abertura de mercados para empresas estrangeiras pode ter deixado muito governo cego sobre o que de fato estaria por vir. O que antes não era preocupação, e o foco era voltado somente para a integração econômica e financeira, agora passam a ser prioridades: segurança nacional e geopolítica. Vários países, abastecidos a curto prazo pelo continente asiático, mais precisamente por produtos chineses, esqueceram de pontos fundamentais para a autosobrevivência. A pandemia gerada pelo novo coronavírus potencializou essa discussão sobre o quanto todos precisam, no mínimo, possuir alternativas e cadeias de suprimento muito bem trabalhadas, não dependentes de uma única fonte. Respiradores, chips eletrônicos, máscaras, vacinas, remédios, pneus, insumos plásticos, tecidos, computadores, todos os tipos de produtos manufaturados sumiram repentinamente do mercado e tudo foi inflacionado, passando, inclusive, os fretes marítimos de U$ 500,00 o container para U$ 4,500.00. Lei da oferta e da procura.
A população ficou refém de políticas públicas, de governos que poderiam ou não salvar as suas vidas - dependendo dos alinhamentos político e econômico presentes em cada país. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até os dias atuais, somente 11% da população africana foi vacinada. Isso mostra a fragilidade de países existentes no mundo, bem como um exemplo de que o que se globalizou verdadeiramente foram assuntos de negócios, mas esqueceram de globalizar a saúde, a educação e a integração de áreas que podem ser afetadas em uma crise.
Como se não bastasse tal desestruturação mundial causada na saúde, agora todos estão em tempo de guerra. A Rússia e a Ucrânia estão em plena guerra de poderes. Fica evidente que a globalização, até mesmo neste momento desumano, está direcionada à soberania Russa regional; à dependência de seus vizinhos à sua estrutura e financiamento; à militarização e proteção a critérios russos. Agora, o mais impactante sobre a Ucrânia: ela se desmilitarizou acreditando que uma guerra nos dias atuais teria amplitude de sanções econômicas e tecnológicas, não bélica. A Alemanha e toda a Europa assustada aumentaram o planejamento para mais do mínimo pedido pela OTAN, que são 2%. O foco começa a demonstrar que, antes mesmo de salvar o planeta com energia limpa, o mais urgente é salvar a própria pele. Tudo ficará em segundo plano.
A soberania nacional será o foco. Fortemente empregada em vários países em 1930, agora em um modelo não tão dominador, volta, então, a ser o principal objetivo com tantos problemas que fizeram cada um aprender a proteger a sua vida. O mundo entendeu que precisa ser autossuficiente e que questões estratégicas não poderão mais ser delegadas. Até mesmo grandes empresas estão deixando a Rússia, num claro sinal de desespero com suas marcas apoiando países desorganizados e desestabilizados. Isso ocorrerá com maior frequência. Mas e agora, o que precisa ser feito? O Brasil está claramente em cima do muro nesta guerra: depende dos Estados Unidos para se tornar líder na América Latina e, ao mesmo tempo, de produtos vindos da parceria sino-russa (Rússia e China). O potássio, utilizado para a fabricação de fertilizantes, é um exemplo do quão o Brasil não se preparou para a autossuficiência. Depende muito da importação da Rússia ao invés de possuir um plano de extração nas reservas em Sergipe e Amazonas. Resultado: o país não conseguirá todo o abastecimento suficiente e sofre pressão do Ocidente para não realizar comércio com os russos.
A falta de uma política industrial há décadas no país fez com que a inovação nunca fosse prioridade. Na verdade, é um dos piores países nesse quesito. Segundo o Portal da Indústria, o Brasil está em 57º lugar de uma lista de 132 países. O que de fato existe é uma política precoce de desindustrialização, oposto do que os EUA, inclusive, objetivaram nos últimos mandatos, mudados pela era Trump e continuado por Biden. A nação norte-americana será, então, por questões regionais, o eixo para o Brasil. Serão três eixos para fortalecimento dos negócios: Estados Unidos, Europa e China. Não existirá, por exemplo, um país fortemente alienado a duas economias. Por exemplo, o Brasil reduzirá a sua dependência chinesa, que passará a ser mais americana. Grupos como Mercosul voltarão a ganhar destaque neste novo modelo e, consequentemente, novos blocos passarão a ter forças nunca encontradas antes. Mais uma vez, a decisão de melhores negócios e parcerias ficará por conta dos governos. Foi assim com o auxílio de capital para a economia em seu momento de maior estresse dos últimos 50 anos. Agora será a vez das divisas econômicas. Haverá, então, o liberalismo imaginado por alguns estudiosos? Praticamente não. E a dependência pode ser ainda maior. É importante fazer, além de negócios, o dever de casa. O Brasil, por exemplo, precisa alinhar setores que estão longe de outros, em termos de inovação e produtividade, para, assim, reduzir a dependência de outros players e países. Precisa fortalecer e se industrializar novamente. Deixar de ser um país somente de commodities e passar a ser um país de conhecimento e valor agregado.
O mundo parece que encolheu para o seu próprio mundo. Agora, todos estão olhando para as fragilidades que vão além da econômica, mas também de sobrevivência e independência. Uma soberania mais saudável e não tão influenciadora, mas que exista no seu mínimo.
A conclusão é certa: não somente as pessoas aprenderam a se fechar, alterando o modo de pensar e agir, mediante aos lockdowns impostos, como os países e seus governos ganharam destaques mediante a população por suas escolhas. Agora, todos precisam ser mais focados na independência para a sua continuidade e a sua sobrevivência. O momento é de introspecção, tanto individual como nacional, mesmo aprendendo a compartilhar recursos e causas com outros que estão sofrendo muito mais em países distantes, longe da própria realidade.
O autor é CEO e Founder da WNN Consultoria, formado em Administração e especialista em estratégia e inteligência de mercado pela Fundação Getulio Vargas, Ohio University e UC Irvine - EUA.