Em um País onde a população sente os efeitos do desemprego, cujos índices devem estagnar em 2022, mas não recuar, e onde quem tem emprego viu seu rendimento e, consequentemente, o poder de compra diminuir em mais de 10% (segundo dados do IBGE do último dia 18), será difícil que a decisão pelos novos governantes não seja majoritariamente pautada pelo 'bolso'. Também seguirá alimentada pela emoção e não pela razão, de acordo com análises feitas na estreia do programa Café com Política, que aconteceu nesta sexta-feira (25), por meio da parceria multimídia entre o Jornal da Cidade/JCNET e rádio 96FM.
Por conta deste cenário, segundo a avaliação dos debatedores, as eleições de 2022 devem ser muito diferentes da ocorrida em 2018, que elegeu o presidente Jair Bolsonaro (PL), já que as bandeiras teriam mudado. A indignação pela corrupção e a atenção com segurança deram lugar à preocupação em ter comida na mesa, emprego e salário dignos e saúde. Sairia de cena, então, o caráter 'plebiscitário' da eleição, como ocorreu em 2018.
Para o especialista em marketing político e comunicação eleitoral Kleber Santos, as preocupações citadas reforçam o perfil do eleitor brasileiro de individualizar as razões de sua escolha, privilegiando questões pessoais em detrimento das coletivas. Esse perfil deve estar destacado nestas eleições. "O que estará em primeiro lugar é o que está fazendo boa parte da população passar fome", opina.
POLARIZAÇÃO
Por outro lado, a semelhança a ser mantida entre as últimas e as próximas eleições majoritárias, em outubro, é a polarização entre dois nomes: o ex-presidente Lula e o atual presidente Bolsonaro. "Para termos uma eleição com mais opções ao eleitor e mais discussões de propostas seria bom a terceira via ganhar mais corpo neste debate e disputa", ponderou o diretor de Jornalismo do JC, João Jabbour.
IDEOLOGIA
Apesar do grande número de partidos existentes no País, a polarização serve como reflexo de um fenômeno antigo no Brasil, que está se agravando, segundo o especialista em direito eleitoral e mestrando em Filosofia Política Luciano Olavo. Trata-se da perda das ideologias e da 'pessoalização' dos candidatos. "O eleitor está votando nas pessoas e não nas suas ideologias, e isso é muito ruim".
Para Luciano, uma evidência do agravamento deste fenômeno foi a criação, no ano passado, das federações partidárias, quando partidos se unem com estatuto e programa comuns registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), durante e depois das eleições. "O que são as federações se não as perdas de identidades dos partidos. As pessoas que concorrem por estas legendas não podem evocar este ideal dos partidos para legitimar suas campanhas e só podem concorrer com base em si mesmas".
As posições políticas de esquerda e direita devem se esvaziar com este movimento, em sua opinião. Luciano ainda avalia que toda esta mudança é motivada por questões financeiras, como na disputa pelo fundo partidário. Jabbour acrescentou que a pessoalização tem grande relação com o populismo, uma marca dos dois principais candidatos à Presidência no País hoje, mas fenômeno que permeia toda a história da República brasileira.
O economista Reinaldo Cafeo afirmou que o perfil médio do eleitor brasileiro, em sua maioria, é moldado para escolha de candidatos pensando em questões pessoais e não no bem-estar coletivo.
Ainda na discussão sobre o que deve marcar as eleições de 2022, Kleber Santos destacou pesquisas recentes, segundo as quais a corrupção deixou de ser um tema central para o brasileiro, e isso vai pautar as campanhas. "Os candidatos buscam na população a inspiração para levar o seu plano de governo e suas propostas, porque para ser eleito tem que estar em sintonia com a expectativa da população".
PAZ E AMOR
Outro tema abordado foi o crescimento do presidente Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto, mesmo se mantendo em 2.º lugar, o que para o economista e jornalista Reinaldo Cafeo pode significar reflexo de uma mudança em sua postura, que está suavizada aos olhos do eleitor. Para Jabbour, a alteração de desempenho se deve às medidas implementadas neste momento pelo governo, como a transferência de renda, o que afeta diretamente a percepção do eleitor. Mas o jornalista ressalta o fato das pesquisas apontarem que até 70% dos eleitores ainda não se decidiram em quem vão votar, contexto que reduz significativamente a abrangência dos resultados destas pesquisas até agora.