O Brasil perdeu, nesta terça-feira (29), um dos principais artistas da sua história. Elifas Andreato morreu, durante a madrugada, vítima de complicações de um infarto. Ele tinha 76 anos e, ao longo de toda a vida, usou a arte como instrumento da luta por justiça e paz em nosso país.
Junto ao grande público, se notabilizou pelas mais de 300 ilustrações de álbuns musicais. Não à toa é um dos mais cultuados capistas da história da Música Popular Brasileira e tem no currículo a arte de alguns discos emblemáticos, como "Nervos de Aço", de Paulinho da Viola, "Arca de Noé", de Vinicius de Moraes, "Ópera do Malandro" e "Almanaque", de Chico Buarque, e "Luz das Estrelas", de Elis Regina.
HISTÓRIA
Nascido em Rolândia, no Paraná, em 1946, Andreato mudou-se para São Paulo na década de 1960, onde, autodidata, começa a contribuir para publicações sindicais com charges e ilustrações. Em 1967, o autor passou a colaborar com a editora Abril, onde trabalhou nas revistas Manequim, Claudia, Quatro Rodas e Placar, até chegar ao cargo de chefe de arte do selo Abril Cultural.
Na editora, o artista foi responsável pela direção de arte da coleção de fascículos "História da Música Popular Brasileira". A partir do contato com jornalistas, materiais de desenho e pintura, livros e revistas de arte proporcionados pelo ambiente jornalístico, ele desenvolveu o estilo gráfico que usou nos seus trabalhos como capista. A linguagem visual do artista também ficou marcada por desenhos figurativos de tipos brasileiros que buscam expressar a cultura popular.
Antes disso, ilustrou cartazes e páginas de jornais da imprensa alternativa que fez oposição ao regime militar, como “Movimento”, “Opinião” e “Argumento”, e teve uma forte relação com o movimento sindical, fazendo inúmeros trabalhos de forma voluntária.
DITADURA
Nenhum outro artista foi capaz de traduzir com mais brilhantismo a indignação de toda a sociedade pelo assassinato de Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975. É dele, por exemplo, a tela “25 de outubro”, registro marcante e emocionante da prisão, tortura e assassinato de Vlado. A obra, inclusive, ganhou uma reprodução em forma de mosaico na Praça Vladimir Herzog, localizada no centro de São Paulo, próximo ao prédio da Câmara Municipal.
O espaço conta ainda com outras duas obras de arte de autoria de Elifas: uma versão ampliada da escultura Vlado Vitorioso e a versão em ponto grande do troféu do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que também foi desenhado por ele.
PREMIAÇÕES
É dele ainda o troféu do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão e o design do logo do Instituto Vladimir Herzog, entidade da qual participou da fundação, era conselheiro e um grande parceiro, sempre pronto a produzir artes e ilustrações para diferentes projetos e iniciativas.
Em 2011, Elifas recebeu o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. No troféu, está grafada uma frase que resume bem a importância deste personagem para a história do nosso país: “A arte é amiga da Liberdade e os artistas sempre lutam por ela. Se a ditadura de Franco teve que encarar o Picasso, a nossa precisou encarar o Elifas”.