Salvo engano, é a primeira vez que vemos a colocação do embate eleitoral como uma luta entre o bem e o mal, o multimilenar problema da humanidade. Mostrar as deficiências de um governo e as suas consequências na vida do povo a que ele deve servir e a proposta para superá-las é um confronto de adversários, não de inimigos, como foi nos tempos primitivos, de pilhagens animalescas. Essa colocação é muito forte para uma sociedade civilizada e em pleno estado de direito, como a nossa. Só pode ser interpretada como consequência da alta presença evangélica no atual governo.
A disputa pelo poder, na sociedade legalmente organizada, na verdade é uma luta pelo bem, mas no sentido de viver bem, de não sofrer pela falta ou deficiência da satisfação das necessidades do povo. Combater a pobreza, as desigualdades e criar condições de desenvolvimento, de progresso, é fazer o bem. Negligenciar nos serviços pagos com o dinheiro do povo e, mais ainda, roubar o povo pela corrupção e difundir mentiras pela Internet é fazer o mal, mas nunca houve governo que só fizesse o bem ou só fizesse o mal.
O governo é um conjunto de pessoas com características diferenciadas por formação cultural, poder econômico, tradição familiar, crenças, ideais etc. Esse conjunto de desigualdades se distribui pelos órgãos da administração pública em todas as especialidades e níveis. É natural, portanto, que entre eles haja os que se orientam pelo bem no sentido cristão, de fraternidade e haja os que se orientam pelo bem próprio, no sentido egoísta. A predominância de uma ou outra dessas formas de orientação é que cria a imagem de governo voltado para o bem ou voltado para o mal, mas na cabeça de seus seguidores, todos acham que estão do lado do bem. As lideranças dessas formas de comportamento, de tempos em tempos também assumem predominância e levam o governo de um país para regime liberal, democrático, ou restritivo, ditatorial, mas aqui também todos afirmam que estão sendo democráticos. Isso confunde os eleitores, sempre em dúvida de quem está certo, o que pode originar grupos que podem se dirigir para a passividade ou a violência.
Aqui transcrevemos uma citação de Carlos Heitor Cony, tirada de "Notas Contemporâneas", de Eça de Queiroz (1909), que ilustra a dúvida do eleitor em tais situações: "A presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criança sem pão, a incapacidade da Monarquia e da República, da Ditadura e da Democracia para realizar a única obra urgente do mundo, a casa para todos, o pão para todos, lentamente me tem tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo". Se os adversários do atual governo, em resposta, também adotarem o lema, ele se transformará num bumerangue que mudará o caráter cívico da campanha para uma verdadeira guerra, já que cada um conhece em abundância os males do outro. Para o atual governo também representará um descrédito de seus seguidores que juram respeitar a Constituição e confessam fidelidade à Bíblia. O melhor é esgrimir com projetos realistas e confiáveis, usando a espada da justiça.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.