Nesses tempos pesados, ocupo parte de meus dias em busca de uma voz autoral mais poética, descolada do olhar da jornalista que habita lugares institucionalizados há duas décadas. Mas há sempre uma pontinha de dúvida sobre esses caminhos de escrita. Onde, afinal, queremos chegar? Num leitor, seria a resposta mais óbvia. Mas há um leitor aí? A pergunta pulsa, atravessa o peito e cai na página em branco, sorrateira e esperançosa.
Acostumada a pensar sobre os fazeres da Comunicação, área que demanda necessariamente movimentos dialógicos para ser efetivada como processo, muito embora inúmeros colegas de profissão insistam em apenas jogar informações ao léu, entregando notícias em bandejas que circulam em salões vazios, titubeio quando me provocam a pensar a escrita apenas com os olhos d´alma. "Não carregue tanto peso: história, leitor, personagens... É muita responsabilidade! Entregue-se ao processo, não revele tanto e deixe que o outro faça a parte dele. Deixe que o outro faça o que quiser com o que receber de você", diz a escritora Geruza Zelnys. Nos bancos universitários do velho e bom Jornalismo somos instigados a pensar o tempo todo no público para o qual vamos entregar nosso conteúdo, independentemente de seu formato ou gênero. "É preciso tornar o texto atraente, por recheio, e falar com a pessoa que receberá a mensagem", dizia um sagaz professor de técnica redacional, na Unesp. Em 2015, numa imersão com o guru Ciro Marcondes Filho e sua nova teoria da comunicação, ele falava que "é impossível comunicar, já que nós nunca podemos saber o que se passa na cabeça de outra pessoa". Assim, Ciro definia: "Comunicação é um acontecimento, um evento nem sempre possível, antes improvável, encontro feliz ocasional de múltiplas coordenadas em um momento que não se repete, que é único e que tem força expressiva particular".
E é a partir do conceito de acontecimento (de Jacques Derrida, outro pensador que conversa, e muito, com o trabalho provocativo construído por Ciro em décadas e décadas de mergulho) que entro num campo de escrita solitário: um caminho de busca de uma voz autoral. Mergulho em mim para tentar chegar até você. É uma entrega à escrita para tocar a sua pele, caso isso seja possível, é claro. Antes, porém, preciso tocar minha própria pele. O corpo da minha escrita passa pelo meu próprio corpo. E nessa trilha pode-se, ou não, encontrar um leitor. Não há garantias nem contratos. Há apenas um eco a ser soado por uma voz. É preciso parir isso, guardando todos os mistérios de uma vida por vir. E quando acontece, se acontece, é mágico e contundente. Como são contundentes e mágicos os processos de comunicação quando, de fato, são conduzidos por quem pensa e sente essa área do saber como um verdadeiro acontecimento.
A autora é jornalista, escritora, especialista em Linguagem, Cultura e Mídia pela Unesp.