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Cadê a minha casa?

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O velho pai, pode ser a velha mãe também, não mais se entende com o filho ou com a filha. O tempo costuma inverter os papéis: os pais, pelas contingências da idade, passam a morar na casa dos filhos. Ou os filhos, na casa dos pais. Muitas vezes, esse é um momento tenso, fonte de muito sofrimento. A vida inteira se entenderam. Quando surgia alguma desavença, era tranquilamente contornável. Durou até que os filhos decidissem que os pais não tinham mais condição de viver sozinhos. Daí pra frente a história é sempre a mesma. Sabe como é - os filhos justificam - os velhos precisam de proteção, não tomam os remédios direito, são teimosos, há sempre o risco de queda ou de um mal estar súbito... Deles não se pode descuidar, sabe lá com quem andam conversando na internet. Golpistas não faltam, armadilha preparada, para se aproveitarem da boa-fé dos velhinhos.

Dona Margarida, uma mãe. Tenho 90 anos, estou desesperada, minha filha me proibiu de morar sozinha. Agora, moro com ela. Já não tenho o meu cantinho, meus móveis, minhas coisas, não decido, não mando mais em mim. "Deixa comigo, mãe, eu resolvo tudo", ela me garante que assim é melhor. Contratou uma cuidadora, "não pode ficar o dia inteiro me pajeando". É verdade, ela tem a vida dela, eu não tenho mais a minha.

Dona Benedita, a cuidadora, é uma boa mulher, vive me oferecendo chá, bolacha e os comprimidos todos na hora certa. Mas eu sei que ela me "entrega" quando faço uma das minhas. Eu entendo, faz parte do jogo, ela ganha pra isso. O que a Benedita nunca vai entender é que eu preciso respirar.

Márcia, uma filha. Minha mãe é cabeça dura, quer fazer tudo do jeito dela. Eu explico, ela emburra. Se falo o que ela precisa ouvir, ela chora. Eu me arrependo, peço desculpa, aí ela chora mais ainda. Não sei o que fazer. Eu não queria, mas a gente já tá pensando numa casa geriátrica. Não, melhor não. Não quero pensar nisso. Seria dolorido demais... Não sei...Talvez.

Seu Alfredo, um pai. Nunca pensei que um dia o meu filho deixasse de me escutar. Ele não presta atenção no que eu falo, e se casualmente me ouve, vai logo me dizendo que "a coisa não é bem assim". Em seguida, fala, fala, fala, só para provar como a coisa é. Queria muito que ele conversasse mais comigo, não se irritasse tanto, abrisse uma cerveja, azeitonas... Ele não pode, tem pressa, tem negócios, tem compromissos... Eu não tenho nada, só o meu dinheiro e o celular controlados. Ele anda irritado, não se conforma com essa mania que eu tenho de ir todos as tardes ao supermercado encontrar amigos. Ontem ele perdeu a paciência e subiu o tom da voz: "Será que você não percebe que eu só fico tranquilo se você estiver em casa trancado?" Não aguentei: "Será que só eu preciso perceber, você não?"

A antropóloga Mirian Goldenberg, colunista da Folha, publicou, nesse jornal, "Como combater a invisibilidade e a solidão dos mais velhos", (06/04/22), sensibilizando-me a ponto de eu escrever essa crônica. Desde 2015, Mirian pesquisa as dificuldades de convivência entre gerações da mesma família: mães e pais nonagenários e filhos sexagenários. Triste saldo: violência física e verbal, ameaças, maus tratos, abusos financeiros, ofensas, abandono... Depois, ela toca na ferida: "A preocupação dos filhos pode ser expressão de cuidado e afeto, mas é preciso evitar a tentativa de cercear a liberdade de mulheres e homens lúcidos, ativos e saudáveis que ainda são capazes de ser protagonistas da própria vida. É sempre bom lembrar que os mais jovens de hoje serão os velhos de amanhã, não é mesmo?"

A melhor intenção do mundo é a pior quando retira vida de quem ainda vida pode ter. Quando o desejo de proteger vira desejo de prender. Quando a desejada tranquilidade dos filhos é alcançada com o sofrimento emudecido dos pais. Empatia continua sendo a palavra. Explica e resolve. Foi o que disse a Mirian: "Os jovens de hoje serão os velhos de amanhã." A vida não deixa por menos.

O autor é professor de redação, autor de obras didáticas e ficcionais.

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