O retorno definitivo às aulas presenciais, após dois anos de pandemia, vem sendo marcado pelo aumento de episódios de violência e confusão dentro das escolas. Segundo o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) em Bauru, o quadro é mais preocupante na rede estadual, onde, conforme pesquisa elaborada pela própria Secretaria da Educação do Estado, dois em cada três alunos relatam sintomas de depressão e ansiedade, além de dificuldades para controlar a raiva e a irritação diante de situações adversas.
Em Bauru, é com frequência que ocorrências têm chegado a público neste início de ano letivo. No dia 6 deste mês, por exemplo, uma pichação foi encontrada em um dos banheiros da Escola Estadual Guia Lopes, na Vila Dutra, anunciando que haveria um atentado no local. A PM foi mobilizada e, felizmente, nada ocorreu.
Já no dia 14 de março, alunos protestaram na Escola Estadual Stela Machado, na Vila Pacífico, por conta de denúncias de assédio sofridas por estudantes do 3.º ano do ensino médio. O professor acusado por elas foi afastado e o caso é investigado.
Outra ocorrência, de briga generalizada entre alunos, foi registrada em 11 de março, em frente à Escola Estadual Ernesto Monte, na Vila Noemy, região central de Bauru. Segundo a Apeoesp, o embate físico entre estudantes é o tipo de conflito mais comum, porém, também se tornaram mais recorrentes discussões em que os jovens entram em enfrentamento ou insultam professores.
RAIVA E ANSIEDADE
Chefe de Gabinete da Secretaria da Educação do Estado, Henrique Pimentel observa que, além do prejuízo educacional provocado pela pandemia da Covid-19, ficou evidente que os alunos também sofreram perdas socioemocionais. Na pesquisa da pasta, que contou com a participação de 642 mil alunos e foi divulgada no início deste mês, 67% deles se declaram nada ou pouco capazes de exercitar a competência "tolerância à frustração" e que têm dificuldades para controlar raiva e irritação.
E 69% relatam ter sintomas ligados à depressão e ansiedade. No mapeamento, 43,8% dos estudantes também disseram ter pouca curiosidade para aprender, 43,3% avaliam que têm pouca responsabilidade e 37,6%, pouca determinação. Além disso, 41,8% dos alunos afirmaram ter desenvolvido pouco a empatia.
"Houve um aumento das ocorrências de violência nas escolas, uma falta da procura pela mediação dos profissionais, por parte dos estudantes, que tendem a resolver questões de convivência sozinhos e, infelizmente, por meio da violência. Isso tem ocorrido em todo o Estado, reflexo desta geração que está fragilizada por tudo que passou com este isolamento, muitas vezes não tendo condições de fazer troca com seus colegas, até de forma online, devido à falta de recursos. Isso afetou a capacidade destes estudantes se ressocializarem ao voltar à escola", avalia Pimentel.
MUDANÇA DE ESCOLA
Para o coordenador da Subsede Bauru da Apeoesp, Marcos Chagas, além destes prejuízos provocados pelo afastamento da escola durante a pandemia, outros problemas também contribuem para que a violência na rede estadual seja mais presente. Um deles é a ampliação do número de unidades em tempo integral, que acaba levando um grande número de estudantes a pedir transferência para outras escolas em que as aulas duram meio período.
"Em média, isso ocorre com 40% dos estudantes, que não têm condições de estudar em período integral porque trabalham, fazem curso ou precisam cuidar do irmão. Muitas vezes, era um aluno que tinha uma vida escolar tranquila, mas começa a viver conflitos porque foi para uma escola que não faz parte da comunidade dele, com a qual ele não se identifica. Um exemplo muito claro disso foi quando estudantes do Christino Cabral foram para o Ernesto Monte. Houve um aumento muito grande da violência no Ernesto, que não existia no Christino", completa.