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Há anos, moradores convivem com queimadas e queixas viram 'fumaça'

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Basta o fim de tarde chegar para que o céu na região dos Jardins América e Aeroporto e Parque das Nações, na zona Sul de Bauru, seja tomado por uma fumaça, muitas vezes com odor de plástico. Relatada há quase cinco anos por moradores daquela região, a situação, que também foi constatada pela reportagem no fim da tarde desta sexta-feira (29), já foi alvo reclamação na prefeitura e até na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), segundo os moradores. Até um abaixo-assinado com 80 assinaturas chegou a ser entregue à Secretaria do Meio Ambiente (Semma) antes da pandemia, mas os reclamantes nunca obtiveram respostas.

Prestes a colocar sua residência à venda por não aguentar mais a fumaça aos fins de tarde quase diariamente, Paulo da Silva Neto, 54 anos, resolveu tentar passar a reclamação adiante pela última vez e, além de enviar um novo e-mail à Semma, procurou a reportagem para expor a situação como representante dos vizinhos.

Diante da nova cobrança, o poder público demonstrou reação e a prefeitura informou ao JC que irá instalar um Ecoponto na área, além de intensificar as fiscalizações (leia mais abaixo).

"Soubemos que as reclamações e o abaixo-assinado que fizemos na gestão passada da prefeitura se perderam, mesmo sem nunca terem sido respondidos. Então, resolvi mandar um e-mail para que essa gestão tenha conhecimento e nos ajude. Desta vez, recebi uma resposta de que o processo está em análise no Departamento de Ações e Recursos Ambientais", comenta Paulo Neto.

"Já fizemos reclamações e denúncias também na Polícia Militar, nos Bombeiros, na Cetesb, mas ninguém nunca fez nada. Beira o desespero a situação, e do meio do ano passado para cá ficou ainda mais insuportável morar aqui. Estou pensando seriamente em colocar a casa à venda, porque está insalubre. Há noites em que o céu fica parecido com o de Londres, cheio de neblina, mas só que com fumaça", reclama.

'FECHAR TUDO'

De acordo com o morador, as queimadas ocorrem, geralmente, a partir das 17h e geram uma espécie de "operação de guerra" dentro de casa.

"Fechamos tudo e vedamos as janelas. Se tiver roupa no varal é preciso tirar também, porque tudo fica com cheiro da fumaça. Minha filha tem rinite e sofre muito, ela fica trancada dentro do quarto. Para sofrer menos, temos optado por sair de casa à noite e fugir fumaça, vamos para os shoppings ou até para os supermercados", conta Paulo Neto.

Ele cita que há anos acompanha as situações e que já chegou a ser ameaçado ao tentar descobrir os pontos de incêndio. Além de serem usadas como instrumento ilegal de limpeza em terrenos, as queimadas também viriam evidenciando um problema social na cidade. "Os coletores de reciclável fazem a separação de material e o que não é vendido eles queimam. Também fazem isso com fios de cobre. E, com isso, o mato que beira a ferrovia pega fogo. Essa é a situação que há anos observamos", aponta o morador.

"Nas comunidades, também não há coleta, então, acredito que muitas queimadas começam por fogo em lixo. Ajudaria se a prefeitura instalasse, ao menos, um Ecoponto por aqui. O que não dá mais é para não fazer nada e fingir que o problema não existe. É preciso campanhas de conscientização e ajudar essa população, que passa por dificuldades", conclui Paulo Neto.

CETESB

Em nota, a Agência Ambiental da Cetesb em Bauru disse não ter registrado reclamação sobre esse assunto. O órgão esclareceu, contudo, que os bairros citados estão próximos de remanescentes de vegetação nativa na área urbana do município, os quais, principalmente em períodos de estiagem, sofrem com queimadas.

"Esse tipo de situação ocorre, normalmente, em áreas não licenciadas pela Cetesb, cabendo à Polícia Militar Ambiental o atendimento", diz a Cetesb, orientando a reportagem a contatar a corporação.

Comandante da Companhia da Polícia Ambiental de Bauru, o capitão Leo Artur Marestoni informou que não há registros recentes de denúncias recebidos pela corporação. "Mesmo que fôssemos acionados, poderíamos agir apenas nos em casos em que há flagrante, ou seja, quando encontramos alguém provocando a queimada. Podemos até ajudar a fiscalizar, mas se constatado algo, a competência para punir danos em áreas urbanas é do município e, com relação à poluição causada, é a Cetesb", finaliza Marestoni.

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