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O nariz nos salvará

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Muito mais do que na vida real, a mulher foi amada, pranteada e homenageada na poesia. Os clichês poéticos inundaram os versos românticos. Nos lábios, o casto beijo roubado à luz da lua. Nos pezinhos graciosos, a insinuante carícia. No seio adormecido, o gozo e o desmaio. Pezinhos, lábios, olhos, boquinha, seios... E do sovaco ninguém vai falar nada? Poetas (e o resto da humanidade) fogem do sovaco como vampiro, da cruz. Por isso, o fetiche axilar a nenhum deles inspirou. A gente até sabe da existência dos fungadores de calcinhas, dos que caem de boca nos pezinhos, nas orelhinhas, nos joelhinhos, mas no sovaco nunca!

Preconceito besta! Logo contra o cheiro, importantíssimo na excitação sexual. É o que a ciência vem gritando desde sempre. Os feromônios, substância química secretada pelas glândulas sudoríparas, são decisivos para acender o fogo entre homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem e em outras possíveis combinações que a minha imaginação e idade não me permitem mais alcançar. É pelo nariz que a gente perde a cabeça. Dá pra entender por que o cachorro cheira tanto rabo da cadela, prática que, felizmente, os humanos não adotaram. Credo!

Em texto instigante, "A Arte de Cheirar Sovaco", Hélio Schwartsman noticia a chegada de um livro que mergulha fundo na sudorologia: The Joy of Sweat (O Prazer do Suor), de Sarah Everts. Além do livro pode-se adquirir o o "Guia Padrão para Avaliação Sensorial de Odores Axilares". Olha só o fino humor e a seriedade do comentário do sempre ótimo Schwartsman: "Sim, é isso mesmo que você leu, um manual para cheirar sovaco. E não é coisa de pervertidos sexuais, mas uma demanda real da bilionária indústria de cosméticos, que precisa saber se seus produtos funcionam." Bem isso, chegou a hora de meter o nariz na bufunfa. Em tempo, esclareço aos desavisados que "bufunfa" é dinheiro. Sovaco ainda vai dar emprego e boa renda pra quem souber onde e como meter o nariz. Assim como os vinhos precisam da expertise da língua e do nariz dos enólogos, as axilas abrirão importante campo profissional para os cheiradores de sovaco. Já se fala em cursos de graduação e pós.

Pesquisadores do mundo todo estão comprometidos em decifrar o caminho que leva o cheiro da coisa boa até o cérebro. Em decorrência, aguardam-se fármacos que, cheirados como perfume, acordem o que anda adormecido ou amolecido. Notícia pra comemorar, claro, se considerarmos que a perda da libido é importante causa de infelicidade humana. Também novos desodorantes serão lançados para promover a desejável aproximação ou o necessário afastamento: "não vem que não tem!"

O nariz, sempre mal visto e estigmatizado por se meter demais na vida alheia, agora ganha o indulto (tá na moda) da ciência. Resgata-se assim um importante "órgão" (a palavra cai como uma luva) que promete revolucionar a sexualidade e a economia mudial. É de se esperar, portanto, que os poetas deixem de ser bestas e passem a reconhecer que, sem o cheirinho do sovaco, a poesia será mentirosa e, sobretudo, broxante.

Quem diria?! O nariz nos salvará!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

 

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