Não entendia o ventre virar um
balão com a barriga
Não sabia de inchaço nas glândulas
mamárias
Não gostava do apelido de Pata
Não decifrava os olhares
sarcásticos a ela dirigidos
Não sabia mais contar dias,
somente semanas e meses
Não imaginava que daria à luz mais
que a lâmpada
Não conseguia ver na cara de joelho
um rosto
Não via que seria nunca mais a
mesma
Não pensara que doaria mais leite
que o Banco de Leite
Não se via trocando fraldas fedidas
Não se olhava no espelho, não
sabia o que veria
Não tinha mais namorado ou
marido, só uma criatura para
chamar de sua
Não foi mais ao salão, limitou-se a
uma cadeira para amamentar
Não jogou, não foi à academia
Não deixava a mãe, a avó,
estragar o certo
Não sabia que as monossílabas
eram amigas
Sim, Não e Mãe eram amigas,
ditongos nasais
Sim, estava depressivamente feliz
Sim, tinha apenas um indivíduo
que valia o coletivo
Sim, não precisava de ninguém,
tinha alguém
Sim, era mais que a Liga da
Justiça inteira
Sim, os seios podiam cair, desde
que nos mais lindos dos lábios
Sim, não sabia qual era o atual BBB
Sim, não via horas nem senhoras ou
sem horas
Sim, era um mulherão da zorra
Sim, era um ser raro, ímpar sendo
par com a cria
Sim, naquele dia, orou: Mãe nossa que está na casa, dignificado seja o seu nome, vem a nós o seu peito, seja feita a sua vontade assim na Terra como no filho meu.
A mão nossa de cada dia nos afague e perdoe a quem não quer ser mãe, assim como abençoe a todas mães e não nos deixe de ser mãe!
Amém.