Tribuna do Leitor

Darcy, mais um Bardo que se vai

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).
| Tempo de leitura: 4 min

Ultimamente tenho reclamado demais da conta pelas perdas de gente revolucionária à minha volta. Sei que para tudo nesta vida nada é insubstituível, mas para mim, militante de esquerda desde que me conheço por gente, sinto a cada dia uma falta danada de bravos guerreiros partindo, sem que note peças de reposição para compor a equipe na luta e lida. Acredito muito nos que possam vir por aí, mas me seguro muito pelas experiências dos que me deram bons exemplos de persistência e insistência inabalável na luta.

Darcy Rodrigues é um destes.

Darcy se foi na última sexta-feira, aos 81 anos. Militar reformado, de uma cepa do Exército brasileiro onde bravos guerreiros ainda resistiam dentro e fora das tropas. Darcy participou da luta armada contra a ditadura militar e o considero um dos mais autênticos dentro da linhagem de "testemunha ocular da História" brasileira. Fiel escudeiro do capitão Carlos Lamarca, com ele abandonou o quartel e fez a sua luta em prol de dias melhores para o povo brasileiro. Padeceu de tortura, quando capturado no Vale do Ribeira, permanecendo exilado em Cuba por quase dez anos.

No retorno ao Brasil, uma pessoas mais preparada, lúcida e com bastante instrução, se mostrou um profundo conhecedor da História deste país, não se furtando por um só instante de relatar o que passou e de participar de amplos estudos sobre o desenvolvimento do Brasil. Pertencente a uma linhagem de fibra e resistência dentro dos quartéis, fez questão de relatar de como se dava o nacionalismo na tropa no seu tempo e hoje, mesmo com o momento de profundo descrédito das Forças Armadas, era entusiasta em acreditar que, dentro da corporação ainda existe muitas formas de resistência, hoje contida, calada, mas flamejante.

Um conversador por natureza e aos 81 anos, bonachão, palmeirense e irreverente cidadão, emérito contador de piadas e de histórias, a maioria vividas por ele mesmo. Não podia encontrar com um oponente e se punha a tentar convencê-lo. Inquebrantável em tudo o que fazia, quando o telefone tocava aqui em casa e ciente ser ele do outro lado, parava tudo, pois sabia, do outro lado alguém querendo conversar. Ficávamos horas, na maioria das vezes ele me contando causos e casos, destrinchando os acontecimentos de antanho e destes tempos, onde só mesmo, alguém com a sua perspicácia, sabia como ninguém, me convencer de seus pontos de vista. Não era fácil debater com ele, pois sem argumentos, a pessoa ficava pelo caminho. Ele tinha argumentos pra dar e vender.

Sinto desde já sua falta. Tenho lembranças inenarráveis de viagens juntos, quando numa delas foi entrevistado pelo cineasta Silvio Tendler, para um dos seus documentários sobre os desdobramentos e consequências de 64. Noutro, fomos para sua Três Lagoas, reviver seus passos der infância. Na verdade, ele é de Avaí, aqui pertinho de Bauru, onde fomos também algumas vezes em busca de relíquias no museus local. Quando voltei de Cuba em 2007, foi a primeira pessoa a me receber, querendo saber se havia cumprido integralmente o roteiro a mim designado. Ficamos semanas conversando sobre o tema, conversas para uma vida inteira. Não me fale neste momento das polêmicas e enrascadas onde ele já se meteu, pois todos as temos na vida. Sua luta suplanta tudo. Olho para trás e sei ter sido ele um honroso soldado, brioso, corajoso, audaz e persistente. Ciente de sua caminhada.

Tenho centenas de histórias com o danado. Algumas eu ainda declino de contar, mas não deveria, pois Darcy se orgulha de todas onde esteve enfurnado. Esse baixinho espevitado, brigão, cara fechada quando necessário, foi até o fim um fiel amigo, destes onde a podia confiar e me abrir por inteiro. Sinto saudade, não só dele, mas de tantos que se foram por estes tempos e quando paro para pensar, sei que meu tempo também está se esgotando e ao olhar para trás, sei que não existe comparação no feito por ele e por mim, daí, tenho que correr atrás do prejuízo e continuar sendo, fazendo e acontecendo, pois tanto ele, como eu, somos da pá virada, dos que não se seguram nas calças. Pavios curtos, pagamos o preço pela ousadia, mas é exatamente isso que nos diferencia dos demais. Darcy não teve medo de lutar por um ideal, o de tuta transformadora neste país.

Hoje, lamento e tento me revigorar, me recarregar para os embates pela frente, todos os que sei, ele estaria mais do que engajado. Enfim, sabemos muito bem, a luta continua.

Darcy é um dos espelhos para não desistirmos nunca.

 Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

 

Comentários

Comentários