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A ideologia dominante nas Ciências Econômicas: hora de refletir!

Marcos Costa Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

As Ciências Econômicas não são consideradas ciências exatas, pois essa última trata de fenômenos naturais, cuja existência independe da interferência humana.

Por sua vez, a Economia é a ciência social que estuda a produção, distribuição e consumo de bens e serviços, a qual se utiliza de métodos e modelos estatísticos, testes de hipóteses e propõe modelos econométricos em suas respectivas áreas de atuação para existir.

Existem muitas correntes da teoria econômica, mas a dita economia ortodoxa ou mainstream, que predomina nos cursos de economia, utiliza-se de manuais com uma linguagem sofisticada, e acaba por servir de base principal para analistas e comentaristas da vida pública.

Essa corrente se desenvolveu em grande parte a partir da economia neoclássica em finais do século XIX, moldando inclusive o Consenso de Washington. Mas pode se referir também ao monetarismo ou à Escola de Chicago.

A macroeconomia, uma das divisões da ciência econômica, estuda a economia em geral, analisando a determinação e o comportamento dos grandes agregados como renda e produtos, níveis de preços e outros, trazendo vários modelos, na perspectiva neoclássica, como se fossem verdadeiros em qualquer tempo e lugar.

Muitos desses modelos são relativamente consistentes, mas nem por isso constantemente verdadeiros, pois, como dissemos, a Economia não é uma ciência exata. Por isso esses modelos devem ser questionados e conferidos de tempos em tempos.

Atualmente, no Brasil, um dos maiores críticos à macroeconomia neoclássica é o economista André Lara Resende. Para ele, essa corrente se tornou um garrote ideológico, sem capacidade para formular políticas públicas eficazes e promover o crescimento com distribuição de renda.

Em seu recente livro, "Camisa de Força Ideológica: a crise da macroeconomia", o autor faz uma severa crítica aos pressupostos da economia ortodoxa.

Na mesma linha, nos EUA, destaca-se o professor John Howland Cochrane, especializado em economia financeira e macroeconomia. Ex-professor de economia e finanças da Universidade de Chicago, Cochrane atua em tempo integral na Hoover Institution da Stanford University.

O trabalho de Cochrane contradiz as teorias em uso pelos bancos centrais de que subir juros leva certamente a uma inflação menor. Para Cochrane, na verdade, seria o oposto, ou seja, haveria uma relação de longo prazo entre juros altos e inflação alta.

De volta ao Brasil nos anos 80 e 90 do século passado, o país só venceu a guerra contra a inflação através de um estudo sistemático a respeito da teoria da inflação inercial (a inflação inercial é o processo automático de realimentação de preços), cujo grupo de professores e pesquisadores acabaram por se distanciar da ortodoxia monetarista, e conseguiram, através de novos pressupostos, criar o Plano Real, que veio a vencer a hiperinflação brasileira.

Ademais, cabe sempre refletirmos o quanto houve de mudanças no nosso sistema capitalista ao longo das últimas décadas: novas tecnologia, novas relações de trabalho, novas governanças, novos hábitos, mudança de valores etc.

Tudo isso influencia no comportamento dos empresários e consumidores em geral e, portanto, fatalmente nas premissas que irão compor os modelos econômicos.

Portanto, mais do que nunca, os analistas em economia precisam ser mais cuidadosos quando defendem e repetem premissas que se valeram quando o mundo era bem diferente; não que essas não valham mais, mas, no mínimo, necessitam ser repensadas e ajustadas.

Para finalizar, fica algo para refletir.

Será que essa política econômica vigente, que consiste em subir taxa de juros para combater uma inflação cujas causas são da ordem de problemas na oferta de produtos essenciais, juntamente com o retorno do componente da inércia inflacionária, deveria seguir a cartilha da corrente ideológica dominante do mercado?

Sabidamente, a alta taxa de juros tão somente ajuda os banqueiros que são os que possuem títulos da dívida pública e recebem mais retornos pelos empréstimos concedidos, quanto maiores forem tais juros, e opostamente aumenta-se a pobreza e concentra-se a renda.

Então, até que ponto essa insistência é tão somente fruto de uma teimosia cega a fim de não contrariar a lógica da corrente dominante, ou se propositalmente, se faz concessão a uma pressão de um determinado grupo de interesse em busca de privilégios próprios?

Afinal de contas, pouco resultado se alcançou com tal política nesses últimos 12 meses.

O autor é economista, auditor fiscal municipal e professor universitário.

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