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Tapeação não mata fome

PEDRO GRAVA ZANOTELLI
| Tempo de leitura: 3 min

Dias atrás foi divulgado que 33,1 milhões de brasileiros (15,5% da população) estão passando fome, segundo pesquisa do Inquérito Nacional Sobre Segurança Alimentar. Isso representa quase o dobro da pesquisa feita no ano anterior, que foi de 19 milhões (9,1% da população). A pesquisa mostrou que 125,2 milhões de brasileiros vivem com algum grau de insegurança alimentar, número que corresponde a mais da metade (58,7%) da população do país.

Em 27/6/2002 a Folha comentou que cerca de 20 milhões de brasileiros passavam fome e que, na pior das hipóteses, sugerida pelo Mapa do Fim da Fome no Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, o problema mais que dobrava de tamanho: 50 milhões seria o número de miseráveis que não tinham o que comer. Como se vê, tudo o que foi falado nesses 20 anos, nas campanhas eleitorais, como está acontecendo agora, não passou de tapeação para eleger parlamentares e executivos de norte a sul do Brasil. Muitos que estão pleiteando a reeleição ou vão concorrer pela primeira vez, com certeza prometerão lutar para por comida no prato dos pobres. O problema é muito sério. Trata-se de fome coletiva e não daquela fome após o expediente em que o indivíduo diz: "vou comer alguma coisinha para tapear a fome". Depois chega em casa e mata a fome porque tem o quê comer, mas a maioria dos 33 milhões não tem nem o quê possa tapear a fome, apesar de tudo que foi prometido.

Possivelmente haverá quem diga que a pandemia e a guerra da Ucrânia são a causa dessa situação. Elas são apenas agravantes, a causa verdadeira é o subdesenvolvimento em que o país está atolado. Depois de ter-se emergido como país em desenvolvimento, encabeçando o BRICS - grupo formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, passados 20 anos o Brasil e a Rússia passaram para o segundo escalão, trocando de posição com a China e a Índia.

Esse declínio coincide com dois períodos de governo sob a nuvem escura dos resquícios de duas ideologias de triste memória - o comunismo e o nazifascismo. São governos sem planejamento formal. Governam com planos pessoais, com foco no mando, que é autocrático, em vez de liderança, de comando democrático. Suas âncoras estão de acordo com suas origens políticas - o sindicalismo e o militarismo. Não são governos para a nação, mas para facções, atitude que agrava a desigualdade social, favorecendo alguns segmentos em prejuízo da maioria.

Ver todo mundo com celular, operando face book, whatsapp, twitter, carros sofisticados, muitos ansiosos por viajar após a pandemia e uma infinidade de programas de TV de mastersheff fazendo comidas de dar água na boca cria a ilusão de estarmos num país desenvolvido. Mas país desenvolvido não pode ter uma grande parte da população passando fome, vivendo em casas precárias, sem água tratada e esgoto a céu aberto; escolas sem sanitário, sem material didático, sem merenda; chefes de família (homem ou mulher) sem emprego ou outro meio legítimo de ter dinheiro para sua subsistência; população sem segurança pessoal e patrimonial e sem perspectiva de desenvolvimento por limitação de oportunidades na área da ciência e tecnologia. Pode acrescentar mais coisas que mostram o nosso subdesenvolvimento.

O Brasil teve uma boa fase quando a população era concentrada na zona rural e contou com a participação dos imigrantes na produção de alimentos, mas agora, apesar da produção ser incomparavelmente maior, devido à mecanização, a população urbana está longe da fonte e não dispõe de dinheiro suficiente para comprar. Além disso, a agropecuária está mais estimulada para a exportação e o país não dispõe da despensa para guardar as provisões, como temos em casa. Faltam armazéns reguladores suficientes e estrategicamente localizados. E faltam empregos.

Vamos pensar bastante antes de apertar o botãozinho da nossa preferência, porque a urna não é violável.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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