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Família venezuelana dribla fase amarga vendendo doces em Bauru

Guilherme Tavares
| Tempo de leitura: 3 min

Em meio às bancas da feira, uma chama atenção pelo nome e pelos produtos na estufa. Na Bienmesabe, os salgados e, principalmente, uma diversidade de doces típicos da Venezuela, feitos com castanhas, frutas e massas folhadas, atraem olhares. Atrás do balcão, o sotaque não deixa dúvidas: a família de imigrantes trouxe a confeitaria típica do país vizinho para reconstruir a vida no Brasil após amargar sérias dificuldades na terra natal.

Durante muitos anos, eles atuaram no ramo dos confeitados, chegando a distribuir produtos para 18 padarias por mês na cidade de El Tigre, região norte da Venezuela. Muito se deve ao talento do pai, Julio Ovidio, 53 anos, confeiteiro desde os 14. A especialidade são os doces folhados, como o de damasco e o strudel de maçã (leia mais abaixo).

No entanto, com o agravamento da crise político-econômica, passou a ser cada vez mais difícil sobreviver. "Tudo começou a subir muito. Ficou impossível conseguir farinha, porque era regulada pelo governo. Eles davam uma quantia exata para retirar. Então não dava lucro. Recebia o dinheiro para comprar matéria prima, mas não alcançava para repor o que tinha vendido", explica Suleidys Aurora, 44 anos. "Toda semana tinha que trocar os preços e, com a comida tão cara, doce passou a ser um luxo".

A família até tentou empreender em outras áreas, mas se depararam com mais um obstáculo. A filha Julia Victoria, na época com 12 anos, começou a ter crises de epilepsia. "A gente pegava medicação em Santa Elena de Uairén, na fronteira com Pacaraima (RR). Ou seja, a medicação dela vinha do Brasil. Mas ficava a dez horas de viagem da nossa casa. E comprar era impossível porque era muito caro", explica Suleidys. Além dela, o casal tem o Julio, de 21 anos, que hoje mora em Florianópolis.

MUDANÇA

Em 2018, decidiram cruzar a fronteira e foram parar em Manaus, onde viveram um ano e sete meses. "Vendemos maquinário, todas nossas coisas. Chegamos com R$ 8 mil e achamos que daria para comprar o que precisava, mas rapidamente percebemos que não era assim", conta a mãe. Para sobreviver, apostaram novamente na confeitaria. "Começamos a misturar com coisas deles. Fazer doces de cupuaçu, salgado de mandioca, mas eles são muito tradicionalistas. O paulista tem mais aceitação com nossas coisas", diz Suleidys.

Depois, em 2019, se aventuraram por um ano e meio em Mineiros do Tietê, após convite de um amigo de Julio. Investiram em equipamentos, chegaram a montar uma loja, mas foram surpreendidos pela pandemia. Daí a decisão de vir a Bauru, em busca de movimento maior.

Novamente, o espírito de perseverança foi essencial. Depois de um duro começo, com poucas vendas, encontraram nas feiras livres o caminho para, mais uma vez, reestruturar a vida. Hoje eles trabalham em sete feiras, seis dias da semana. O modelo de negócios possibilita, inclusive, oferecer produtos a preços mais acessíveis. "Assim que tivermos condição financeira, pensamos em montar uma loja. Mas não temos planos de voltar para a Venezuela, infelizmente", complementa a mãe, que também aposta na divulgação pelas redes sociais para alavancar vendas.

ALÍVIO

Se por um lado eles ainda batalham para consolidar o negócio, por outro uma vitória foi alcançada. A filha Julia, hoje com 16 anos, está bem de saúde e as crises foram controladas. "Aqui ela teve atenção com neurologista pediátrico, fez todos os exames. Fez tratamento com a medicação correta, tirou os remédios há seis meses e não convulsionou mais. Na Venezuela, nós não teríamos conseguido nem mesmo dar uma boa alimentação para os nossos filhos", diz Suleidys.

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