Os homens, além de imprestáveis, iguais são. Ardilosos como lobos em pele de cordeiros, mas não, você era diferente. Naquela noite à mesa, você foi o único que conversou comigo sem recorrer ao maldito celular. Desse mundo em que tudo se predispõe a' www', você me mostrou conversa com outras consoantes. Gostava do jeito que você me olhava. Respeitoso, comedido. Não demorou muito para o primeiro beijo. O pedido de namoro foi num segundo sábado de fevereiro do mesmo ano que nos formamos. Alegria em duplicidade. Meus pais confiaram minha felicidade amorosa num homem de All Star, calvo, magro como varal de sítio, com a boca num chiclete mascando menta e convicções sobre o nosso futuro.
Organizados que éramos, a gente se combinava em tudo. Fui uma mulher de poucos sapatos, lembre-se disso. Por falar em lembrar, e aquela mensagem que você me enviou pelo celular próximo ao Natal, dizendo que precisaria conversar algo urgente comigo!? Bobo, que susto! Era convite de noivado. Ali você aliançou um sonho. Nossas famílias riram e abençoaram juntas nossa união em novo estágio neste educandário de vida. Nossas alegrias e inquietações espontâneas como um gesto de alisar os cabelos ou fechar os olhos do esclarecimento do sol. Como se nada, como se tudo. Você, em sua profundidade, uma piscina, e eu, com roupa de banho prestes a mergulhar. Tudo em volta perdia-se no protagonismo das nossas identificações. Como pierrô e colombina em festa de fantasia, você e eu éramos um o complemento do outro, raro como videocassete de quatro cabeças rebobinável. Gostava do seu jeito de me olhar. Eu me aninhava na ternura exata do seu olhar, sempre comprometido com o nossos afazeres. Pra você, gratidão e respeito dispensam gradação.
Depois de casados, finais de semana ganhavam alternância na casa dos nossos pais. Importante nosso filho ter a convivência dos avós. Na casa de sua mãe, lembra? Uma fruteira transparente descansava sua utilidade saudável na mesa acostumada a cerzir companhias. A fome nos igualava à macarronada dos sábados. O café, o doce de figo, tchau, pai, tchau, mãe na felicidade das horas. Todo dia agradecíamos, todo dia amanhecia. Representante comercial de uma grande empresa, você ganhava a vida no asfalto da região. Um Chevrolet conduzia, segunda-feira pela madrugada, sua dedicação ao serviço. Às sextas-feiras, final da tarde, a placa limite de município garantia seu retorno. Nossa vida cabia numa antena de tevê, na polegada exata da alienação de um programa de auditório e na apreensão de uma partida de futebol do segundo tempo. Distância? Só de fofocas, do inconveniente e de animais na pista, tamanha identificação de um pelo outro.
Tudo o que tínhamos vivido até aqui era justamente para que vivêssemos tudo a partir dali. Da memória desbotada à lembrança envelhecida, saber que vamos morrer e que, um dia, um de nós partirá sem o outro, dói muito. Gosto do jeito que você ainda me olha. Nesse momento, a mão envelhecida de um segura a mão enrugada do outro. Hospital. Nunca se sabe se é cedo ou tarde pra dizer adeus, pra aprender com a ditadura da dor a desaprender lições que nos invertebraram, pra aprender que a satisfação do líquido é respeitar a rebeldia do sólido, pra compreender a geometria vertical do sol e horizontal da lua. Aprender com o inventário do idioma do silêncio a afoiteza inútil das palavras estufadas. Aprender um pouco mais para desaprender ainda mais.