A pandemia da Covid-19 modificou, com maior ou menor intensidade, a forma como todos os indivíduos compreendem suas próprias vidas e o mundo. No ambiente corporativo, esta transformação trazida pela crise sanitária tem feito muitos trabalhadores repensarem suas carreiras, condições de trabalho e objetivos de longo prazo.
Nos Estados Unidos, o fenômeno ganhou até nome: "great resignation" ou "grande debandada", caracterizada pelo aumento expressivo do volume de pedidos de demissão, algo verificado a partir de 2021 e que se repete em países da Europa e na China. No Brasil, segundo o consultor em gestão empresarial Ricardo Martins Soares, da Funcional Competência Empresarial, o movimento também ocorre, mas especialmente entre profissionais com maior qualificação e cargos de liderança, que deixam seus empregos mesmo sem ter a garantia de contratação em outro local.
EQUILÍBRIO
O especialista explica que, mesmo com o nível de desemprego na casa de 10,5%, o Brasil também vivencia esta "grande debandada" em um universo de colaboradores que têm buscado melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional e que passaram a reavaliar o nível de concessões que estão dispostos a fazer, considerando que o trabalho é entendido apenas como um dos aspectos de suas vidas e não o todo.
"E, como a maioria ocupa cargos de chefia, as empresas passam a ter dificuldades de fazer o melhor assessment, ou seja, novas contratações de profissionais adequados às exigências das vagas. Isso é ruim para as companhias e também para o trabalhador, que será infeliz naquela função", analisa.
MOTIVOS
Segundo pesquisas realizadas nos Estados Unidos, entre os motivos que têm levado aos pedidos de demissão, estão a cultura tóxica de empresas, estresse e sobrecarga diante da redução do número de colaboradores (medida adotada por muitas organizações em razão das perdas financeiras resultantes da pandemia), pouco reconhecimento profissional, baixos salários e falta de oportunidades e de flexibilidade no trabalho (neste último caso, algo comum entre aqueles que atuaram por um período em home office).
"As organizações precisam ter lideranças inspiradoras, que estimulem a equipe a buscar crescimento, e lideranças humanizadas, que entendam o colaborador como uma pessoa que tem uma vida fora da empresa; elas devem estabelecer avaliação por desempenho, com remuneração condizente com a tarefa que os profissionais executam. Também precisam avaliar as competências destes trabalhadores vinculadas aos traços de personalidade, que predizem comportamentos. É importante saber se estas competências são as demandadas para as funções que eles exercem", enumera Soares.
Para ele, as empresas devem estar atentas, ainda, à gestão de mudanças organizacionais, trabalhando a comunicação no ambiente corporativo com linguagem clara e treinando as equipes sempre que uma novidade na rotina da companhia for implementada. "Esta gestão aumenta as chances de essas mudanças serem bem-sucedidas. As empresas também precisam ter visão de projeto, programando recursos, plano de mitigação de riscos, impactos. Tudo isso contribui para motivar estes profissionais que estão, cada vez mais, ressignificando as prioridades de suas vidas e valorizando o que é essencial", completa.