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'Sociedade do Cansaço': cobrança em excesso se naturaliza e afeta saúde

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Quantas vezes você já se cobrou e até ficou deprimido por não ter a produtividade que gostaria ou deveria? Ou já se frustrou ao comparar via redes sociais a sua atual situação profissional com a de um colega de faculdade? Esses são alguns dos questionamentos e sentimentos que a vida moderna no trabalho trouxe para cotidiano da chamada "Sociedade do Cansaço", termo cunhado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que descreve como o modelo de produção da nova era do capitalismo tem naturalizado as cobranças em excesso.

Na análise dele, essas exigências têm favorecido a exaustão e o surgimento de doenças que afetam a saúde física e mental das pessoas. Entre elas está a Síndrome de Burnout que, em janeiro deste ano, foi reconhecida oficialmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um fenômeno ocupacional, portanto, passível de afastamentos e até aposentadoria por invalidez.

Professor de psicologia da Unesp de Bauru, Luiz Carlos Canêo reforça que as características dessa nova era, galgada em desempenho e alta performance, muito em função dos avanços tecnológicos, têm gerado uma legião de doentes, especialmente no mercado de trabalho.

"As pessoas têm se prendido em um mundo de fantasias propagado pelas redes sociais e, quando se dão conta, não possuem espaço na vida sequer para fazer o que realmente gostam", comenta o psicólogo.

Para ele, o reconhecimento da OMS é importante por trazer à tona uma questão que tem afetado desde o chão de fábrica ao executivo.

"Não dá mais para as empresas fecharem os olhos ao Capital Humano. A saúde mental dos profissionais precisa de atenção. Então, é necessário focar na organização do trabalho. A cobrança sobre o indivíduo aumentou muito em todos os sentidos. E o uso da tecnologia tem ajudado as relações por um lado, mas piorado por outro, trazendo sobrecarga de trabalho e desrespeito ao horário dos profissionais", frisa Canêo, elencando que o adoecimento ocorre, geralmente, em ambientes que desconsideram princípios da boa convivência humana.

MOTIVAÇÃO EXCESSIVA

A positividade e motivação em excesso são outras situações que têm contribuído para o adoecimento. Isso porque, ao mascararem a realidade, fazem parecer que tudo é possível e que basta se esforçar mais.

"A pessoa vai se sentindo impotente ou culpada por não dar conta de um emprego que não gosta, que corrompe seus valores, ou exige prazos e metas abusivos. E, muitas vezes, os familiares não se dão conta do problema e reforçam a permanência. Isso é um problema, porque é algo que, inclusive, pode reforçar um sentimento de impotência que já existia anteriormente no indivíduo", acrescenta o Canêo.

Neste contexto, há ainda a crise econômica, que por vezes acaba prendendo profissionais a ambientes tóxicos por necessidade.

"O que se percebe é que a pessoa, inconscientemente, acaba produzindo situações para se afastar do trabalho", observa o psicólogo.

FASES E TRATAMENTO

Três fases caracterizam o Burnout. Na primeira, há um encantamento e hiperprodutividade. Já na segunda, o trabalhador passa a apresentar tensão, agressividade e irritação. Mas é na terceira que, geralmente, a patologia é detectada, quando o funcionário já não possui mais energia para qualquer tarefa, seja na empresa ou em casa e ainda carrega um sentimento de culpa por tudo.

O diagnóstico é feito por psicólogos e psiquiatras, assim como o tratamento, que demanda psicoterapias e pode ou não ser acompanhado por medicações.

PREVENÇÃO

Câneo explica que uma das formas para prevenir transtornos como o Burnout é exercitar o pensamento crítico. "Antes de participar da seleção de uma empresa, por exemplo, procure saber os valores, missões, objetivos e conhecer um pouco mais para entender se há um alinhamento", comenta ele.

Além disso, o autoquestionamento sobre os motivos pelos quais fazemos determinadas coisas também ajuda neste processo, pois, muitas vezes, ações são realizadas no piloto automático ou apenas porque outras pessoas também fazem.

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