Os últimos 12 meses do ator e apresentador Luciano Szafir, 54 anos, não foram fáceis. Entre 14 de junho de 2021, quando começou a sentir os primeiros sintomas da Covid-19, e 19 de junho passado, ele ficou cerca de 70 dias internado em hospitais do Rio e de São Paulo. Foram, ao todo, três diagnósticos positivos para a doença, além de complicações que exigiram exames e tratamentos desconfortáveis, entre eles o uso de uma bolsa de colostomia após a perfuração de uma alça do intestino. No fim de semana de 18/19 de junho, após sentir dores abdominais, ele precisou ser internado de novo com um quadro de suboclusão intestinal. Teve alta e se recupera bem, ao lado da família, apesar de ainda reclamar de dor. Szafir fala sobre o drama que viveu, os traumas adquiridos, a ajuda da terapia e a esperança de recomeçar a vida.
Em 1 ano você passou por três internações. Teve de reaprender a se alimentar, andar e precisou de ajuda para tomar banho. Já tinha imaginado passar por isso?
Luciano Szafir - Jamais. Eu nunca tinha passado por um hospital. Sempre fui ultra saudável. Tive, quando era moleque, algumas lesões no futebol, mas sempre resolvia em consultório médico. É horrível você não conseguir respirar, não conseguir comer, se alimentar por sonda. Fiquei sem comer e beber nada por mais de 20 dias. Quando minha boca ficava seca, passavam um spray de saliva falsa para dar alívio. No início da Covid, eu não conseguia dar três passos. Na semana seguinte já andava 50 metros sem passar mal. Meu corpo respondeu bem, mas eu não conseguia tomar banho sozinho. Saía cansado, como se tivesse corrido meia maratona. Foi um horror. Passei 29 dias deitado ou sentado olhando para o teto. Claro, fazia fisioterapia, mas depois voltava a deitar ou sentar na maca sem respirar ar puro. Se contar todo o meu período em hospitais, eu passei 70 dias dentro deles. Não pretendo voltar a um nem para visitar alguém.
Qual foi o pior momento do período de internações?
Luciano Szafir - Passei por um tenebroso recentemente, durante a retirada da bolsa de colostomia. Depois da cirurgia, eu já estava no quarto, começando a me alimentar, prestes a receber alta, quando uma das alças do meu intestino inflamou e a comida ficou entupida. Passei muito mal, precisei vomitar, mas não foi o suficiente. Colocaram uma sonda em mim. Era um cabo de cerca de 60 centímetros que os médicos introduziram pela narina até a região da garganta. Então eu precisei fazer movimentos peristálticos para engolir o tubo, que tem a grossura de um canudo de milkshake. Fiquei uma semana com essa sonda, sem comer direito, sem dormir. Foi desesperador.
Em algum momento achou que morreria?
Luciano Szafir - Fiquei frente a frente com a morte em alguns momentos. A mais forte ocorreu durante a primeira internação. Já depois de operado, estava no CTI, tomei meu remédio, dei boa noite e dormi. Quando abri o olho, havia uns quatro médicos em volta de mim. Acordei sentindo uma dor no peito absurda. No quadro onde ficam os batimentos cardíacos estava marcando 180. Eles chegaram nos 202 antes de o coração parar de bater. Ouvi aquele som contínuo da máquina, o mesmo que escutamos nos filmes quando o personagem morre. Estava consciente, quase quebrei a mão da doutora de tanto que eu a apertava. Foram os dez piores segundos da minha vida. E do nada a máquina começa a contar os batimentos novamente até parar no 80. Quando fui tirar a bolsa de colostomia, durante a cirurgia, também quase fui embora porque a minha pressão chegou a 5 por 2, tive que tomar uma injeção de noradrenalina.
Você está fazendo exercícios, fisioterapia e seguindo dieta restritiva. Como tem sido a recuperação em casa?
Luciano Szafir - Eu infelizmente ainda não posso sair comendo uma lasanha, bem que eu queria. Apesar de ser restritivo, está bem leve e saudável a minha dieta, não é algo de outro mundo. São seis refeições por dia em torno de 400ml e será assim pelos próximos dez dias. Como fiquei muito tempo sem colocar uma comida ou bebida na boca, o simples fato de comer uma sopa já está sendo delicioso.
Você, que sempre foi vaidoso, desfilou na São Paulo Fashion Week mostrando sua bolsa de colostomia.
Luciano Szafir - Depois da minha primeira cirurgia, eu abri o olho e vi aquela bolsa. Nunca tinha ouvido falar em alguém com uma bolsa de colostomia. Abri meu Instagram e tinha mais de 50 mensagens de pessoas se oferecendo para me ajudar, perguntando se eu estava bem, todas colostomizadas. Falei com homens e mulheres de diferentes idades com uma coisa em comum: autoestima zero. Pessoas que nunca namoraram ou que nunca ficaram nus por conta do medo da rejeição. Foi daí que surgiu a ideia de fazer um desfile mostrando o quanto essa bolsa era importante na vida de tantas pessoas. Mas todo mundo foi contra: minha mãe, meus assessores. A repercussão foi gigantesca. Depois, vi homens e mulheres publicando fotos em suas redes sociais sem camiseta, mostrando a bolsa, pessoas que sofriam bullying, que não iam à praia. Eu não pensei em vaidade, pensei em fazer alguma coisa para ajudar.
O que fez você querer lutar para passar por tantos episódios de quase morte?
Luciano Szafir - Minha família. Quero viver para ver meus filhos envelhecerem, casarem. Hoje sei o quanto a vida é valiosa.