Articulistas

A música como liberdade de expressão; de Strange Fruit a todos os ritmos brasileiros

Luiz Fernando Maia
| Tempo de leitura: 3 min

Nasceu com o primeiro navio negreiro que aportou na então colônia inglesa de Virginia, em 1619. A escravidão americana sucedeu ao trabalho compulsório de brancos, que eram imigrantes europeus que vinham para América com base em um "contrato de servidão" onde obrigavam-se a trabalhar sem remuneração por 2 a 7 anos, para compensar seus custos de viagem, alimentação e acomodações. No trabalho compulsório dos brancos, havia uma relação contratual com o mínimo de respeito à condição de vida humana, no entanto, optou a história americana, mesmo após sua independência (1776), pelo sadismo de aperfeiçoar a exploração de seu semelhante para o processo de escravidão do negro, renegando-lhe todos os direitos, usando-o como instrumento de trabalho, despido de todas as condições de humanidade, levando-o à exaustão nas plantações de algodão e tabaco.

O blues trouxe ao mundo uma canção de lamento e tristeza destes negros cativos, sob a forma de uma canção rítmica de trabalho repetitivo. As primeiras letras entoadas pediam pelo pôr do sol e para que ele não voltasse a brilhar no dia seguinte, em claro protesto ao sofrimento imposto a cada dia na lavoura. Desde seu nascimento, o blues foi um alerta contra o abuso que a humanidade cometeu contra seu semelhante no período da escravidão.

Nos EUA, um código escravista (?) de 1712 tratava dos interesses dos proprietários de escravos e ali se proibia que os negros tivessem acesso a qualquer tipo de instrumento, pelo medo de que os usassem como comunicação organizando insurreições. Por isso o canto (Blues) era a única forma da expressão, tornando-se a ferramenta cultural de afirmação do negro diante da sociedade colonial.

Mas não parou aí, em abril/1939 a cantora de blues/jazz Billie Holiday gravou a música que viria a ser considerada a canção do século pela revista Time: "Strange Fruit". A letra, escrita com base no poema Bitter Fruit (fruta estranha), de autoria do judeu Alber Meeropol (Lewis Allen), demonstra o repúdio aos linchamentos de negros nos EUA, mais especificamente, quando o autor viu em jornais as perturbadoras fotos do linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith (1930).

Ao ouvir a letra da música, percebe-se qual a estranha fruta pendurada no choupo, e como esperado, a música chegou a ser proibida de ser tocadas nas rádios e casas de shows americanas, até que a força da realidade que trazia da crueldade praticada contra os negros rompeu todas as fronteiras, tornando-a um hino do movimento dos Direitos Civis nos EUA e, por que não, em todo o mundo. A tristeza que carrega o blues e sua história que mostra a força de um povo, acima rudemente resumida, oportuniza trazer à baila mais um recente e esdruxulo episódio, que assistimos nesta doentia radicalização de ideologias que o país vive. Por desinformação, onde se confunde dinheiro público com a Lei Roaunet ou a responsabilidade de artistas por contratações de prefeituras, cuja responsabilidade administrativa em nada os envolve, resolveu se estabelecer que aquele que vota no candidato X gosta de tal estilo de música e o do Y em tal estilo. Cantores chegam a se ofender nas redes sociais.

Que mundo é este que se dita o estilo de música certo a ouvir? A que ponto de irracionalidade estamos chegando? O maior valor que uma nação tem é a liberdade de seu povo, e a música, como visto acima, é uma espada levantada em sua defesa. Com tantos estilos musicais; samba, axé, pop, sertanejo, rock, funk, rap, vamos definir um certo e outro errado? Deixem os políticos se digladiarem e decida o menos ruim dentre eles, ouvindo a música de sua preferência.

O autor é advogado em Bauru.

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