O curto artigo anterior neste espaço foi focado na obra de James Joyce (Tradução, traição e tradição, 28/6). Outras traduções e transcrições pelos jornais e revistas têm despertado reflexões que seguem aqui.
Primeiramente, duas questões ortográficas. O y voltou a fazer parte do nosso alfabeto, mas é usado a juízo de quem edita o texto. No início de junho foi noticiada a nova edição de "O Sacy", esperando que seja vista pelo lado lúdico e folclórico que possui, e não alimente ainda mais as críticas à pessoa de Monteiro Lobato e suas convicções racistas. É emblemático que se adote a grafia original com ípsilon, entendendo ser um nome próprio, mas, no caso de Euclydes da Cunha, para o qual o Estadão também foi o primeiro espaço de apresentação de seu livro vingador "Os Sertões", a grafia foi inexplicavelmente atualizada sem o chamado "i grego". Na sequência, em outro jornalão, Gregório Duvivier se superou na avaliação ortográfica/fonética da ausência ou permanência do trema e outros sinais diacríticos, em sua coluna "Monotremático". Ficaram de fora o cedilha, outra cobrinha, abaixo do c, e o famoso acento indicador de crase, que não é acento tônico (questão importante para métrica) e também, como já nos disse o poeta, não é para humilhar ninguém. Ele compete com Sérgio Rodrigues, colunista da língua, resenhado por mim em "Cultura linguística" (Correio Popular, 24/5, A3) e que recebeu o comentário do articulista pelo twitter: "palavras puxam palavras; obrigado pela leitura".
E a tradução continua a nos trair.
Nem é necessário adentrar a inexplicável "noviça rebelde" que citei na crônica "Carta da Terra parada" (Vozes do confinamento, editora Unesp, p. 145, 2022), mas fico apenas com os centímetros e polegadas fálicos da coluna do Ruy Castro. Recentemente, ele usou uma tradução para a frase de Mae West (never mind the six feet, let's talk about the seven inches), que também funciona, apesar do interlocutor não ter 2 metros e 18 cm de altura, mas sim, 2 metros, equivalentes a 6 pés e 7 polegadas. A atriz reflete apenas sobre as 7 polegadas que dão os 18 cm da tradução.
O autor é pesquisador na Unesp de Rio Claro.