Tribuna do Leitor

?O Capitalismo seria bom se existisse

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Escrevo hoje em consideração ao Dr. César, que sempre publica seus textos aqui nesta Tribuna, invariavelmente para louvar as maravilhas do capitalismo. Então vamos lá.

Pra começo de conversa, eu também acredito que o capitalismo é uma coisa excelente, sensacional. Mas seria muito bom se o capitalismo existisse realmente. Sabe aquilo tudo que está escrito em "A Riqueza das Nações"? Aquele manualzinho do Adam Smith que mostra, lá atrás, no século XVIII, como é bom ter liberdade de empreender e como é ótimo que o mercado se regule "naturalmente" com aquela estória de oferta e demanda? É pequenininho o livro, todo mundo deveria ler. Eu mesmo já li duas vezes. Pois bem, infelizmente aquilo não existe. O capitalismo, do modo que está ali, nunca existiu.

O capitalismo existe se você for abrir um boteco, um restaurante, uma oficina mecânica. Aí você vai encontrar o capitalismo. Convido o Dr. César a abrir um boteco. Juro que vou frequentar. Aí o Dr. César vai ver como funciona o capitalismo. No boteco ele vai encontrar a concorrência, vai ver que se ele cobrar 15 reais numa cerveja pela qual os outros botecos cobram 7 reais, vai tudo pro buraco. Não vai vender nada. A não ser que ele cubra o boteco de mármore de carrara (aí pode ter alguma chance).

Mas se o mesmo Dr. César resolver se aventurar no mundo da indústria, das empreiteiras, da construção de estradas e usinas hidroelétricas, a única coisa que ele vai encontrar lá é o Estado. O Estado e muito dinheiro. Tomemos o exemplo da tal privatização da Eletrobrás. Ali, por baixo das péssimas intenções dos políticos que operam essa sacanagem, num cantinho do contrato, em letras miúdas, está escrito que haverá um tipo de contrapartida. Um cara chamado Carlos Suarez, amigo de muita gente, vai receber nada menos que 100 bilhões para construir um gasoduto no Nordeste. Uma pessoa só, com oito concessões de exploração de gás, vai receber a bagatela de 100 bi do Estado capitalista para construir um troço que a gente nem sabe se vai funcionar, e muito provavelmente não vai funcionar.

O capitalismo seria bom se o dono da indústria pagasse mesmo os impostos. Se o Dr. César resolver abrir uma indústria grande aqui em Bauru, a primeira coisa que ele vai fazer é procurar o prefeito e pedir 30 anos de isenção de imposto. Aí o prefeito vai falar que não dá, e o Dr. César vai abrir a indústria em Paranapiacaba, Judas do Norte ou em São Roque do Rio Turvo (as cidades mencionadas aqui são meramente ilustrativas), sabe-se lá com que arranjo com os políticos de acolá. Aí o Dr. César vai precisar de um jatinho. Como compra um jatinho? Igual a todo mundo? Vai na loja e compra? Não! O jatinho do Dr. César será financiado pelo BNDES, com prestações de pai pra filho, negócio da China. E jamais o Dr. César dono do boteco vai conseguir um mísero real do BNDES, pois isso é só para o Dr. César empreiteiro. Esse sim. Esse vai construir estradas e fazer pedágios, porque ele é a favor do Estado mínimo, esse troço que não existe, porque o Estado, num país desenvolvido, tem que estar sempre presente no dia a dia do povo. Na Áustria, por exemplo (todo mundo acha que a Áustria é Estado mínimo mas não é) você paga 50% de imposto por tudo que ganha, mas o Estado te dá saúde, a melhor educação do mundo, transporte, segurança e até cesta básica. Mas como? Isso não é comunismo? Eu não posso decidir se eu quero que o Estado me pague o melhor hospital, a melhor escola? Não. Na Áustria, na Dinamarca, na Irlanda, na Noruega, é o Estado mesmo quem decide tudo isso aí. E a galera vive muito bem.

Se o capitalismo existisse, eu poderia comprar um único avião, cobrar mais barato e fazer a rota Bauru-São Paulo, contanto que passasse em todas as avaliações de segurança. Se o capitalismo existisse, o Carlos Suarez teria que dividir os 100 bilhões que o Centrão vai dar pra ele com milhares de empreendedores.

Esses dias uma amiga comunista (comunista mesmo!) me emprestou um livro do Lênin. Ele se chama "Democracia e Luta de Classes". Ali o Lênin, assim como o Marx já tinha feito antes, mata a pau esse negócio de capitalismo. Lembrando que o próprio Marx também disse que o capitalismo seria muito bom se realmente existisse, o Lênin explica no livro que o capitalismo escorre pelo ralo, sempre, porque imediatamente, assim que um governo é instalado, uma pequena classe social sequestra o Estado para servi-la. E os 90 e tantos por cento da população viram resto. Eles que se virem.

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