O número de mulheres que adotam o sobrenome do marido tem diminuído nos últimos anos em Bauru. Em 2016, representava 67% do total dos casamentos daquele ano. Já em 2021, reduziu para 61,4%. Os dados são da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen).
Entre as hipóteses para esse fenômeno, estão questionamentos da sociedade sobre as estruturas patriarcais, lutas do movimento feminista e, em alguns casos, até mesmo os custos para alterar todos os documentos.
Em 2016, foram registrados 2.981 casamentos heteroafetivos em Bauru, sendo que 2.000 mulheres adicionaram o patronímico do marido. Cinco anos mais tarde, foram 2.059 matrimônios na cidade, dos quais 1.265 esposas alteraram a identidade (confira os dados no quadro).
"São mudanças da nossa estrutura patriarcal. A sociedade, principalmente as mulheres, vem questionando as formas de se relacionar", afirma Sarah Faria Abrão Teixeira, especialista em Psicologia Clínica do Instituto de Análise do Comportamento Bauru (IACB). "À medida em que avançam as lutas feministas, o posicionamento das mulheres na sociedade e a superação do machismo, os comportamentos individuais vão sendo naturalmente modificados. Hoje, a estrutura de poder machista, patriarcal e misógina não se sustenta mais", complementa.
CONQUISTAS
"É uma grande vitória da luta das mulheres", reforça Nilma Renildes da Silva, doutora em Psicologia da Educação e docente da Unesp Bauru. Para ela, a obrigação de ter o sobrenome do marido, que perdurou até 1977 no Brasil (leia mais abaixo), representa uma série de processos históricos de opressão.
"Os homens se apropriaram da capacidade sexual e reprodutiva das mulheres muito antes de criar a propriedade privada e a sociedade de classes. Essa dominação aconteceu pelo uso da força, porque elas eram mortas se não respeitassem esse modo artificial de vida que se tornou hegemônico. Cada vez que desmontamos qualquer resquício da dominação patriarcal é um grande avanço na luta das mulheres pela igualdade", explica.
BUROCRACIA E CUSTOS
Além de tudo isso, também há casos em que o bolso contribui para esses números. A fisioterapeuta Janaina Teixeira, 34 anos, pensava em adotar um dos sobrenomes do marido, José Augusto Guimarães Ferreira, mas declinou em vista da burocracia e do custo em alterar todos os documentos.
"Ficava quase R$ 1 mil para mudar tudo. Uma das mais caras seria justamente a carteirinha profissional", conta Janaina, sobre o registro no Conselho Regional de Fisioterapia. Fora o valor, também estava em jogo a identidade profissional construída ao longo dos anos.
Casados desde 2019, a solução veio com o nascimento do filho: Gael Teixeira Ferreira, hoje com sete meses. "Sempre gostei do Guimarães e a família queria o Ferreira, mas, para ser justo com os dois lados, ele ficou só com um sobrenome de cada um", explica.