Cultura

Escritor traduz insatisfação com Justiça na ficção Newton

Naief Haddad
| Tempo de leitura: 2 min

Na conversa com o analista, Newton está indignado com tudo o que o cerca. "É diabólico, não basta existir, tenho que provar que existo, e agora que sou são. Querem porque querem saber quem eu sou e de onde venho. Não basta existir." Newton existe como o personagem principal do novo livro de ficção do advogado e colunista da Folha de S.Paulo Luís Francisco Carvalho Filho. É Newton, aliás, quem dá título à obra. Não existe, porém, do ponto de vista formal ou burocrático. É um escritor bem-sucedido (sem relação com o célebre cientista inglês), que não tem sobrenome, não tem RG e CPF, não há registro da sua idade, da sua filiação, nem sequer da cidade de nascimento. Newton busca o apagamento da sua memória.

Cada um dos 17 capítulos, todos curtos, consiste num diálogo de Newton com um interlocutor diferente, do tabelião ao promotor, da juíza ao escrivão. À medida que as conversas avançam, a situação do escritor se torna mais absurda e insustentável, como um personagem de Kafka enfrentando tribunais e delegacias da São Paulo do século 21. Advogado criminal há mais de 40 anos, Carvalho Filho leva seu inconformismo com o funcionamento do Judiciário aos caminhos labirínticos de "Newton", seu segundo livro de ficção, como havia feito em "Nada Mais Foi Dito nem Perguntado", sua obra de estreia nessa seara, lançada em 2001.

"Convivi com pessoas que praticaram crimes ao longo da vida e que tinham sofrimentos, dores que nunca vieram a ser percebidas. Nunca ninguém deu atenção a isso, há um mundo da insensibilidade", afirma.

Não foi apenas a insatisfação com a Justiça que impulsionou Carvalho Filho para a criação de "Newton". Estava disposto a se desafiar no que considera um "exercício literário" - ele prefere usar essa expressão a tratar a obra como um romance.

"Depois de 'Nada Mais...', meu projeto era escrever um livro de contos em que cada um fosse a continuação do outro e ao fim, num certo sentido, formasse uma história. Não fiz isso em 'Newton', mas consegui eliminar completamente o narrador e contar uma história apenas por meio de diálogos. A única figura da narração é o título", diz.

Outras marcas do novo livro são a objetividade, a concisão e a coloquialidade, que resultam da trajetória de Carvalho Filho muito ligada ao jornalismo. Ele começou a colaborar com a Folha de S.Paulo em meados dos anos 1980 e permaneceu ligado ao jornal desde então, em funções diversas e sempre produzindo textos com espaço delimitado. Atualmente é colunista de Cotidiano.

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