Longas internações, pacientes intubados, profissionais sobrecarregados. Este, por um longo período durante a pandemia da Covid-19, foi um cenário que se repetiu dentro dos hospitais em todo o globo. Esta conjuntura favoreceu a proliferação de bactérias multirresistentes a antibióticos, incluindo os de última linha, além de diminuir a eficácia de medicamentos para outras bactérias que circulam em UTIs, até então menos difíceis de serem tratadas.
O assunto tem preocupado a comunidade científica e foi abordado pelo professor Carlos Magno Fortaleza, da Faculdade de Medicina da Unesp Botucatu, em evento realizado na última terça-feira (9), no Centro de Estudos do Hospital Unimed Bauru. De acordo com ele, que também é presidente da Sociedade Paulista de Infectologia, foi observado, durante a pandemia, um aumento principalmente das superbactérias Klebsiella e Acinetobacter, que são resistentes aos carbapenêmicos, classe de medicamentos muito utilizada em UTIs para tratamento de infecções hospitalares graves.
"Normalmente, as infecções hospitalares já são por bactérias que possuem alguma resistência aos antibióticos de última linha, bactérias que já existiam, mas que passaram a circular com maior frequência. E, com o aumento do uso dos antibióticos, elas começaram a apresentar novos padrões de resistência. Os carbapenêmicos, por exemplo, eram efetivos contra grande parte destes micro-organismos em UTIs. Mas, com a pandemia, as bactérias suscetíveis diminuíram e as resistentes ganharam espaço", relata.
FATORES
Fortaleza integrou um estudo junto a cientistas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), segundo o qual infecções causadas pela superbactéria Acinetobacter baumannii, uma das mais perigosas do mundo, aumentaram 56% entre pacientes internados em UTIs entre 2019 e 2020, durante a pandemia. A pesquisa analisou mais de 11 mil infecções bacterianas registradas em 99 hospitais paranaenses.
Além do uso mais frequente de antibióticos, o professor explica que outros fatores colaboraram para o crescimento da circulação de bactérias multirresistentes nestes últimos dois anos dentro das unidades de saúde, como as longas internações no momento em que os médicos já tinham protocolos mais bem definidos de tratamento, inclusive de pacientes graves, mas ainda não havia vacina disponível para a população. "E vale destacar que, quando a pessoa está na UTI, com dispositivos invasivos como ventiladores mecânicos, sondas urinárias, cateteres venosos, ela se torna mais vulnerável às infecções", comenta.
Além disso, com sobrecarga de trabalho, os profissionais de saúde ficaram mais sujeitos a falhas relativas à higienização das mãos e outras medidas preventivas. "Fora que todos os esforços para o uso racional de antibióticos caíram por terra durante a pandemia, porque eram muitos pacientes graves a serem tratados. O controle do uso de antibióticos foi, de fato, menos eficaz", acrescenta.