"Quando você nasce em uma aldeia vive respeitando a terra por saber que aquilo é vida, é sagrado. Já na cidade, você cresce valorizando mais o asfalto ou o ar-condicionado." A analogia é de Sonia Guajajara, liderança indígena que, hoje, figura na lista da Revista Times entre as 100 pessoas mais influentes do Mundo.
Pré-candidata a deputada federal pelo PSOL, ela, que já foi candidata a vice-presidente do País na chapa de Guilherme Boulos, em 2018, esteve na Aldeia de Araribá e em Bauru, nos últimos dias, e considera urgente a difusão dos ensinamentos propagados pela cultura indígena para que haja mais respeito à natureza e senso de coletividade.
"Os territórios indígenas, se comparados à qualquer terra pública do País, são os mais preservados, por causa da nossa cultura. É isso o que garante, hoje, a biodiversidade viva", pontua Guajajara. "É muito urgente que a população da cidade tenha mais contato com a com a cultura indígena. Assim, entenderiam que a terra é o bem mais sagrado e que só a floresta em pé garante o clima e a água no rio. Além disso, o senso de coletividade da aldeia ajudaria a desconstruir esse individualismo, todos são irmãos e têm responsabilidade igual", acrescenta ela.
Nascida na terra indígena Araribóia, no Maranhão, Sonia Guajajara é candidata por São Paulo, onde reside há um ano com a proposta de ampliar o movimento político voltado aos indígenas.
"Disputo por aqui, porque é maior o poder de articulação com outros movimentos, com a imprensa e até com as próprias empresas que estão lucrando com a destruição da Amazônia", explica ela.
A chapa integrada por Guajajara terá cerca de 70 candidatos indígenas, em 2022, sendo 25 apenas mulheres, pré-candidatas a deputadas estadual e federal. A intenção é de formar o que ela chama de "Bancada do Cocar".
"Nossas chances não são grandes, os partidos ainda apoiam os que já tiveram mandatos e os que têm recursos para investir. Mas, precisamos aldeiar a política. Não é um sonho, mas sim uma necessidade termos representantes nas Assembleias Legislativas e no Congresso para retomar as políticas públicas indigenistas", cita Guajajara.
POLITIZAÇÃO
Ela conta que, a partir de 2017, houve um movimento de politização dentro das aldeias. "Ocorreu após o desmonte de direitos na Saúde ena questão territorial. Virou entendimento com uma importância sobre participarmos da estrutura do Estado", explica ela, que é formada em Enfermagem e Letras.
"Para continuarmos indígenas, precisamos de terra. Caso contrário, perdemos não só direitos, mas nossas culturas e tradições", completa.
Na última década, Guajajara atuou na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Ela aponta que o País possui, atualmente, 305 povos indígenas diferentes e, 114 destes vivem isolados na Amazônia, o que faz daquela região um dos grandes focos do movimento atual.
"O avanço dos desmatamentos e queimadas os ameaçam. Temos obrigação de lutar para que eles permaneçam lá. Não se pode obrigá-los a viver em aldeamento, como a gente já vive por aqui", considera a liderança.
Ela diferencia a violência na Amazônia da enfrentada no Estado de SP. "Lá, as terras são demarcadas e o conflito é mais físico e sangrento. Já aqui, o problema é que quase não há demarcação de terras e a batalha é mais cultural, só 5 mil das 40 mil pessoas declaradas indígenas não estão em contexto urbano", contabiliza.