Articulistas

Boca suja

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Mexer na boca ou na cabeça? Eis a questão. Na boca, dizem os novos patrulheiros das palavras. Sem unhas, mas com todos os dentes, eles estão sempre prontos a censurar o vocabulário politicamente incorreto. Hoje em dia, falar e escrever exigem muito cuidado. A boca pode nos condenar.

Outro dia, aprendi que não devo mais falar "criado-mudo". Seria incorreto politicamente. Minhoquei as possíveis razões de tal proibição, mas, lerdo como sou, demorei algum tempo até que um raciocínio me socorresse. Isso mesmo, agora entendi! Como o criado-mudo fica ao lado da cama e, em cima dela, acontecem coisas que até o diabo duvida, o criado deveria ser mudo para não espalhar por aí as indecentes acrobacias que testemunhou. Para evitar o mal uso da língua, portuguesa claro, substituíram a palavra proibida por outra rósea, limpa e isenta. Agora, criado-mudo virou "mesa de cabeceira." A Etna, rede de lojas de móveis, "cancelou" do seu catálogo o criado-mudo. A Amazon fez a mesma coisa. Quem procurar a palavra no site levará um esculacho de avermelhar: "Criado-mudo não. O termo correto é mesa de cabeceira. Criado-mudo é um termo com conotações racistas." Mesmo assim, continuo pensando que essa mesinha de cabeceira deva ser tão muda quanto o próprio criado.

Como de costume, entendi tudo errado. Não é nada disso. O google me ensinou que a palavra "criado-mudo" não tem nada a ver com sexo. É politicamente incorreta por outra razão. Faz referência ao escravo negro que, calado, tinha a obrigação de servir ao seu branco senhor. Nada de dar palpites, que para isso ele não era pago. Não era mesmo. "Favela" virou "comunidade". Que ninguém mais fale "favelado", mas "morador de comunidade." Aprendi essa com o brilhante Antonio Prata, na crônica "As palavras e as coisas", publicada na Folha de S. Paulo, em 02/07/22. Estufando as redes, o cronista chutou bola indefensável: "Embora amacie a semântica, não leva água encanada, esgoto e luz para ninguém. Pelo contrário, A gente ouve "comunidade" e dá a impressão de que aquelas pessoas estão todas de mãos dadas fazendo uma ciranda em torno da horta orgânica e não se apinhando em condições sub-humanas, sem esgoto, asfalto, educação, saúde."

Bem isso. Melhor conviver com a agressividade das palavras, já que não podemos esquecer a dívida social. Amaciar o sentido delas é pôr pano quente em ferida aberta que reclama remédio diferente. Agora, convenhamos, "preto de alma branca" não dá! Tirar o negro do grupo negro, sugerindo que ele é branco na alma é perverso demais. Também, poderíamos evitar: "mercado negro", "lista negra", "magia negra", "humor negro" e nem a pobre da ovelha escapou.

Não gosto igualmente de "a coisa tá preta" e nada é mais nauseante do que aquele "se não for na entrada, haverá defecada na saída". Machuca tamanha ignorância, sobretudo porque fere a dignidade humana que nunca teve cor. Por tudo isso, não basta não ser racista, precisamos ser antirracistas.

Volto à questão inicial: mexer na boca ou na cabeça? Nas duas, claro, mas sem essa paranoia de tesourar tudo que se diz. Antes de "politicamente correto" é preciso ser "politicamente sensato". Agora, se não educarmos as cabeças, de nada valerá mexer na boca.

É a cabeça suja que faz a boca ser esse cano de dejetos a escoar.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas ficcionais. 

 

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