Washington - A invasão do Congresso dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021 foi uma tentativa de golpe de Estado com participação do então presidente Donald Trump, afirmou o comitê que apura o episódio no Parlamento. Mas, para organizações da sociedade civil que se reuniram para fazer frente ao republicano, "golpe" era uma palavra proibida.
Quem conta é Michael Podhorzer, articulador político conhecido nos bastidores de Washington e que trabalha com a AFL-CIO, maior federação sindical dos EUA. Ele é considerado um dos responsáveis por articular movimentações de sindicatos, entidades de direitos civis e conselhos comunitários para resistir às iniciativas de Trump de tentar reverter a eleição de 2020 perdida para Joe Biden.
A primeira proposta dos americanos foi justamente não colocar multidões nas ruas com cartazes de "não vai ter golpe". A esquerda, em certa medida, estava preparada para isso, após os atos antirracistas em massa que tomaram as ruas de diferentes cidades meses antes, em protesto contra o assassinato de George Floyd, homem negro asfixiado na abordagem de um policial branco em Minnesota.
"Muita gente da sociedade civil organizada queria sair para protestar ou reagir de alguma maneira. A coisa mais importante que fizemos foi garantir que isso não acontecesse", diz Podhorzer.
PROVOCAÇÕES
Na visão do veterano articulador, reagir às provocações de Trump seria um sinal de falta de confiança no próprio processo eleitoral americano. "Nós tínhamos certeza que a transferência de poder aconteceria, como de fato aconteceu, e precisávamos mostrar confiança de que Biden seria empossado", afirma.
Assim, de acordo com ele, foi possível forçar alguma normalidade. Diz Podhorzer: "Uma coisa com a qual pessoas com tendência a ditadores contam é a reação. Se as pessoas não reagem, basicamente dizem 'Você perdeu e sabe que perdeu'. Elas praticamente riem de quem se acha poderoso demais".
A decisão de evitar as ruas foi sacramentada depois de uma reunião por videochamada entre ativistas de diferentes áreas horas após a invasão do Capitólio, em um dos momentos mais tensos da história recente americana.
O então presidente indicava que se recusaria a conceder a vitória ao adversário democrata, como o fez, e repetiu, como ainda o faz, que houve fraudes e que ele foi o verdadeiro eleito quando o país foi às urnas. A Justiça americana nunca encontrou qualquer indício disso.
CONFIANÇA NAS INSTITUIÇÕES
Evitar o uso da palavra "golpe" vinha também em uma estratégia de esquivar-se de palavras agressivas aos ouvidos de pessoas de outras esferas políticas, que vinham se incomodando com os pedidos de fim da polícia após a morte de George Floyd.
Podhorzer afirma, porém, que só foi possível "ignorar" Trump dado o alto nível de confiança que os americanos têm em suas instituições. Não havia receio, por exemplo, de que militares de alta patente tomassem o partido de Trump; figuras como o general Mark A. Milley, que foi chefe do Estado-Maior Conjunto, agiram dentro do governo para assegurar que as Forças Armadas atuassem como baluarte contra um presidente cada vez mais fora de controle.