Geral

Pandemia deixa uma legião de jovens dependentes de remédios para dormir

Larissa Bastos
| Tempo de leitura: 3 min

"3h30 da madrugada. O corpo e a mente estão esgotados. Mais do que necessário, o sono, porém, não dá as caras. Você sabe que precisa dormir, mas não consegue. Vai de um lado a outro da cama; muda a posição do travesseiro; coloca o celular longe. Tudo em vão". Este relato de uma noite de insônia é, hoje, uma realidade mais do que presente na vida de uma legião de jovens e adolescentes em Bauru. Na esteira disso, uma reação preocupante: muitos deles estão recorrendo a remédios para dormir e já estão até dependentes de tais fármacos. Em alerta a esse quadro, os especialistas apontam que trata-se de mais uma das "heranças" da pandemia.

Durante o período de isolamento social, o desmantelamento das rotinas básicas e o esvaziamento das atividades que essas pessoas tinham anteriormente, como aulas presenciais e trabalho, acabaram por criar condições para o agravamento de problemas na saúde mental, culminando, em muitos casos, com a insônia.

E, em busca de uma solução para as noites mal dormidas, jovens e adolescentes passaram a recorrer cada vez mais a fortes medicamentos já conhecidos entre os mais velhos, como o clonazepam (Rivotril), que é tarja preta, e o zolpidem (Stillnox), tarja vermelha, vendidos apenas sob prescrição médica. Há, ainda, a procura pela suplementação de melatonina (conhecida como hormônio do sono).

Para se ter ideia, o JC consultou seis farmácias de diferentes regiões de Bauru e em apenas uma delas não foi constatado aumento na venda desses remédios. Algumas, inclusive, disseram que houve um "crescimento absurdo da procura" com a pandemia.

'COMPARTILHAMENTO'

Porém, em muitos casos, ressalvam especialistas, esses produtos são consumidos sem antes tentar outros métodos de tratamento que seriam mais indicados e com menos efeitos colaterais. E um alerta ainda maior: apesar da exigência de receita aos fármacos mais fortes, a reportagem constatou que muitos jovens chegam a "compartilhar" os comprimidos com amigos. 

A "moda" do uso de remédios para dormir chegou a tal ponto que, nas redes sociais, é habitual encontrar publicações de usuários que podem ser interpretadas como verdadeiras "declarações de amor" aos fármacos, principalmente ao zolpidem, referindo-se a ele como "pílula de paraíso", "pílula da felicidade" e "pílula mágica".

Alguns até fazem vídeos sob efeito desses fortes medicamentos e, após postar nas redes sociais, colecionam milhões de visualizações (leia mais abaixo). 

PREOCUPAÇÃO

O médico psiquiatra Camilo Ramos Cury, que atua no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Adulto de Bauru, vê com preocupação a "popularização" desses medicamentos. "Nos casos de insônia, só é recomendado o uso de remédios quando outros tratamentos, como a elaboração de uma higiene do sono (leia mais no quadro), não funcionam no paciente. Mesmo assim, eles só devem ser receitados por um breve período de tempo, até que o sono seja regulado".

Esse cuidado é indicado, segundo o especialista, por conta dos efeitos colaterais desses fármacos. Em relação ao zolpidem, não é raro os usuários terem amnésia pouco após a ingestão do comprimido. No caso do clonazepam, preocupa o risco de dependência química do medicamento, sendo necessária a elevação da dose após certos períodos, além da sonolência durante o dia se houver consumo inadequado. Esta mesma adversidade é sentida com o uso incorreto de melatonina.

Ainda segundo Cury, na maioria dos casos, a insônia acaba por ser o sintoma de algum transtorno, como a ansiedade e a depressão, e não um diagnóstico. Por conta disso, quando é tratada a causa primária, muitas vezes, o sono já se regula sem precisar de uma medicação específica. "Hoje em dia, com a facilidade de acesso às consultas médicas avulsas, podem ocorrer receitas desses remédios sem o acompanhamento para intervenção desses quadros", alerta.

Comentários

Comentários