Avôs e avós costumam ser lembrados por provérbios como "A justiça tarda, mas não falha", "pau que nasce torto, morre torto", "beleza não se põe à mesa" - sentenças com um fundo moral, dadas como orientação às novas gerações. Paula Caldeira, 46 anos, porém, lembra-se de receber um conselho inusitado da avó, Adelina: "Compra agora, depois a gente vê como paga."
Hoje Paula passa por apertos financeiros. Microempresária, ela tinha um buffet que quebrou durante a pandemia. Com dívidas, se viu obrigada a procurar um emprego fixo e hoje trabalha como assessora em uma instituição de ensino. Não renegociou todos os débitos, 20% do seu salário vai direto para parte das dívidas em atraso, seu nome ainda está no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e, por conta do seu baixo score (pontuação que indica a adimplência do pagador) no mercado, só lhe restou um único cartão de crédito.
Paula engrossa o time de devedores brasileiros, que vem crescendo mês a mês. Segundo o mais recente levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em agosto deste ano, o nível de famílias endividadas bateu um novo recorde: 79%, contra 78% de julho. Em agosto de 2021, era 72,9%. No mês passado, 29,6% das famílias brasileiras estavam inadimplentes (frente a 25,6% de um ano atrás), enquanto uma fatia de 10,8% admitem que não vão pagar os débitos (eram 10,7% em agosto de 2021).
Economistas e especialistas em psicologia financeira acreditam que a atual crise não é o principal motivo para o endividamento da população. Afinal, por que gastamos mais do que ganhamos?