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Não fomos treinados para fazer escolhas


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"O dinheiro é um papel pintado ao qual damos vida e é capaz de comprar muito mais do que bens e serviços", diz Paula Sauer, economista e mestre em administração pela PUC-SP. "Ele diz aos outros qual o seu status social e lhe dá liberdade de escolha: desde o que você vai comer na hora do almoço até a decisão de deixar um casamento abusivo ou um emprego que te faz infeliz."

Nesse contexto, diz ela, é natural que as pessoas associem o dinheiro à conquista da felicidade. "Mas nossos recursos são finitos, enquanto os nossos desejos - ou o que a publicidade e as redes sociais vendem como se fossem nossos - são infinitos."

"Ao mesmo tempo, nós não somos treinados a fazer escolhas. Mas observamos a relação que as pessoas que admiramos têm com o dinheiro. Vamos imitar o seu comportamento ou, ao contrário, evitá-lo, se presenciarmos alguma angústia envolvida."

De acordo com a especialista, presidente do Iarep (International Association for Research in Economic Psychology), o dinheiro sempre está carregado de representações emocionais. "As pessoas gastam mais do que ganham por conta do desejo: você está insatisfeito, mas se depara com um produto que te encantou. Na hora, pensa: 'É isso que vai me trazer felicidade, alívio'. E compra".

A especialista em psicologia econômica chama a atenção ainda para a "contabilidade mental" que as pessoas adotam, a fim de encaixar uma nova conta no orçamento. "O que costuma durar mais na carteira: 10 notas de R$ 10 ou 1 nota de R$ 100? Com certeza, a nota de R$ 100", diz. "Temos uma grande dificuldade em vincular o gasto atual com a sua consequência futura. Você gasta várias notas de R$ 10, achando que é só uma nota. Daí o endividamento com as compras parceladas", diz ela.

Vera chama a atenção ainda para a fartura de oferta de crédito, que dá a sensação de que a pessoa pode tudo. Não por acaso, o levantamento da CNC apontou o aumento das dívidas em cartões e carnês de lojas. A alta se deu principalmente no grupo de maior renda: 16,8% das famílias que ganham mais de dez salários mínimos têm dívidas nesta modalidade (contra 13,8% há um ano). Já entre as que ganham até dez salários, 19,8% estão com dívidas nos carnês de lojas (frente a 19,1% de agosto de 2021).

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