Cultura

Adeus, Godard!

Inácio Araújo
| Tempo de leitura: 3 min

Jean-Luc Godard, o ícone da nouvelle vague (movimento do cinema francês que se insere no cenário contestatório dos anos 60), morreu na terça (13), aos 91 anos. Ele recorreu ao suicídio assistido, não por estar doente, mas cansado, de acordo com um familiar ao jornal francês Libération. A prática é permitida na Suíça, onde vivia.

O diretor por trás de uma revolução no cinema veio de família de banqueiros riquíssima, mas procurou se afastar por completo dessa riqueza e foi como operário que financiou o primeiro curta. Mais tarde, já morando em Paris, ele furtou do avô o exemplar de um livro autografado por Paul Valéry. Godard podia ter pedido dinheiro em casa, mas preferiu o furto. Era sua forma de mostrar independência.

Quando escreve seu primeiro artigo para a já mundialmente famosa revista Cahiers du Cinéma, há 70 anos, deu ao seu texto o nome de "Defesa e Ilustração da Decupagem Clássica". Expunha ali as virtudes dos filmes feitos e montados à maneira clássica, pois, como explicitaria quatro anos mais tarde, a montagem e a direção de um filme são a mesmíssima coisa. Jean-Luc Godard foi desde sempre um iconoclasta. Gostava de pôr tudo em questão, até ele mesmo.

Em 1959, questionaria o cinema inteiro, com "Acossado", sua retumbante estreia. Tudo era improvisado. Não havia roteiro. Pela manhã, o diretor tomava as notas sobre o que pretendia filmar naquele dia. Encerrava as filmagens quando entendia que a inspiração tinha acabado.

A classe cinematográfica tradicional, tão atacada nos Cahiers pela turma da nouvelle vague, se regozijava com aquele filme que, diziam, seria impossível de montar. Doce ilusão. Não só "deu montagem", como a mais moderna do mundo. Aquela em que cada "raccord" - isto é, o encontro entre dois planos - parecia desafiar os postulados do "bom cinema" e anunciar o futuro de sua arte. Desde então mudaram os parâmetros da montagem. Mas também os da filmagem. Com seu fotógrafo, Raoul Coutard, criou um estilo de reportagem, cinema com câmera na mão, sem luz artificial, ou quase, captação das ruas ao vivo, longe dos estúdios, um tanto de ficção e um tanto de documentário.

Sua arte era "a verdade em 24 quadros por segundo", disse. Era também a mais próxima do homem, pois a única que o captava por inteiro em seu tempo e espaço, sem intermediários. Mestre das frases de efeito, postulou, com seu amigo Eric Rohmer, a superioridade de sua arte: "O cinema é um pensamento que toma forma, bem como uma forma que permite pensar".

Quando passou da crítica à direção, Godard desafiou todas as regras estabelecidas. Se as regras diziam que não se faz um primeiro plano com lente grande angular, ele fazia. Se diziam que não se pode usar branco para evitar o brilho, ele usava.

A única fidelidade de Godard, desde então e até agora, foi à atualidade. Podemos vasculhar sua filmografia. É sempre do presente, de algo que o atrai ou inquieta que seus filmes estão falando. Além disso, se permitiu sempre ser contraditório. Godard passou às séries em vídeo, quando nenhum cineasta ousava. Que importa? Godard experimentava. Foi experimentando que chegou à TV, com as séries "Seis Vezes Dois", de 1976, e "France, Tour, Détour, Deux Enfants", de 1977. O solo em que o cinema pisa, quem o fecundou foi Godard. Com chatices e erros, mas também e sobretudo com gênio e grandeza.

Comentários

Comentários