Articulistas

Espelho, espelho meu...

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Coisa engraçada. A palavra narcisismo mal cai da boca já cola a ideia de alguém extremamente vaidoso que, morrendo de amor pelo próprio umbigo, não tem olhos para o outro. Tudo bem. É assim mesmo, mas não é bem assim. O narcisista não cancela o outro, ao contrário procura-o desesperadamente porque precisa do aplauso dele, do like dele, do compartilhamento dele, precisa dele, enfim. Aliás, melhor dizer que não só o narciso, mas todos nós. É no olhar alheio que vamos buscar quem somos. Por isso, nos arrumamos, nos penteamos, nos perfumamos, decoramos a casa, compramos carro sofisticado, fazemos o diabo possível para fisgar a aprovação alheia. Claro, sem espelho, não temos cara.

O problema não está no espelho, tampouco na cara. Está na medida com que nos agarramos a ele. Quem vive excessivamente no espelho vai pagar preço terrível. A dependência doentia anula-nos a identidade e nos afasta de nós mesmos. Vestindo fantasias para agradar os olhos alheios, num puxa-saquismo interesseiro, corremos o risco de não mais saber quem somos. É o que diz Fernando Pessoa: "O dominó que vesti era errado. Conheceram-me por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara."

Lacan deixou-nos a importante teoria do "estágio do espelho", segundo a qual a construção da nossa identidade pessoal só ocorre porque captamos no olhar do outro o que somos. "Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? Maldita Branca de Neve!"

Ao longo de toda a vida, muitos espelhos dialogam com a nossa cara. Neles, ouvimos elogios, mas também acusações, lambidas, mas também lambadas, afagos e cuspidas. O primeiro espelho, o rosto da mãe; depois o do pai; o dos familiares; o dos amigos... Como se não bastassem tantos, dentro de nós mora o rigoroso espelho do superego, que nos julga sempre e implacavelmente. Ah, não nos esqueçamos do espelho maior, o do Pai que tudo vê e onde nos vemos com contas difíceis de acertar.

Na internet, um robozinho inteligente é o meu mais novo espelho. Seu nome: Algoritmo da Silva. Grudado em mim, ele sabe o que quero comprar, ler, comer, vestir, pensar, sonhar... Ando com medo de clicar num reles sapato porque, no minuto seguinte, o mundo desabará sobre mim com sugestões tantas como se milhares de pés eu tivesse. Esse robozinho-espelho se vale da sua artificial inteligência para invadir a minha praia. Ele sabe cada vez mais quem sou e o que quero. Exatamente por isso, conhecendo-me a ração, só me dá mais do mesmo. A música, os livros, os articulistas, os pratos, os filmes, tudo o que ele me oferece é repetitivo. E eu que tanto preciso de um espelho novo que me mostre o que não sei, a música que não ouvi, o pensamento que não pensei, a comida que não provei, as ideias que nunca tive, estou me enterrando em mim. Eu que tanto preciso enriquecer-me com o repertório e a experiência alheia, estou cada vez mais pobre dentro de uma bolha egótica. Assusta-me quando alguém ousa pensar diferente de mim. Evito todo tipo de conflito, embora saiba que, sem debate de ideias, não existe crescimento. Ao contrário, vivo à procura de gente que pensa exatamente o meu pensamento, ainda que Nelson Rodrigues tenha me advertido de que a unanimidade é burra.

Cada vez mais afundando em mim, sou pleonástico, redundante e simplista. Tenho reduzido toda a complexidade e a diversidade da vida à sobremesa melada que me servem em todas as minhas refeições. Autofágico, não mastigo outra coisa senão a mim mesmo!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais, colaborador de Opinião.

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