Assistindo, em uma plataforma de streaming, o filme alemão "Nunca deixe de lembrar" (2018), de Florian Henckel von Donnersmarck, me chamou a atenção uma cena em que um professor excêntrico da escola alemã de arte moderna, Antonius Van Verten (Oliver Marsucci), apresenta aos seus alunos dois cartazes dispostos sobre cavaletes de pintura, representando os dois partidos políticos que disputavam o Parlamento nos anos sessenta, a União Democrata Cristã (UCD) e a República Democrata Alemã (RDA).
Para que possamos entender melhor o contexto da época, vamos relembrar o que foi a chamada "Guerra Fria". Em 13 de agosto de 1961 foi construído uma barreira física na cidade de Berlim, um muro de grade metálica com extensão de 66,5 km. A distinta e muito mais longa fronteira interna alemã separava a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental. Esta fronteira passou a simbolizar a chamada "cortina de ferro" entre a Europa Ocidental e o Bloco de Leste. Antes da construção do muro, 3,5 milhões de alemães orientais tinham evitado as restrições de emigração do Leste socialista e fugiram para a Alemanha Ocidental, muitos ao longo da fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental (fonte: site wikipedia.org/Muro de Berlim).
A escola citada está localizada no lado Ocidental da Alemanha, portanto acredita-se nas promessas de democracia e liberdade de expressão, tão recorrentes nos discursos da propaganda política eleitoral daqueles candidatos, tanto de direita quanto de esquerda. Na sequência o professor pergunta aos alunos: "Em quem você vai votar?" A classe se divide optando por este ou aquele partido. Eis que surge a relevância do filme e deste artigo, quando Van Verten responde: "Não votem em ninguém, vote na arte!", justificando que só na arte a liberdade não é ilusão. Em seguida ele queima os dois cartazes, num enquadramento de fotografia incrivelmente lindo e impactante.
E o que é a arte, senão a verdade do autor, expressada em todas as suas linguagens. Através da escultura, desenho, pintura, música, dança, teatro, cinema, arte performática, moda, literatura, enfim, todas as modalidades e gêneros, até mesmo com o uso das novas tecnologias, o artista expressa a sua visão da realidade e como o momento sócio-político-cultural afeta seus sentimentos.
O diretor leva o público a percorrer o caminho pedregoso que a arte enfrentou a partir da segunda guerra mundial até os anos setenta. É a história da arte moderna, abordada do ponto de vista, muitas vezes embaçado, de um pintor que resiste às várias tentativas de uma sociedade hipócrita e de governos opressores para castrar a verdade. Aqui no Brasil não foi diferente. A Semana de Arte Moderna, em 1922, reuniu diversas apresentações de dança, música, recital de poesias, exposição de obras - pintura e escultura - e palestras, onde os artistas envolvidos propunham uma nova visão de arte, a partir de uma estética inovadora inspirada nas vanguardas europeias.
O evento chocou parte da população e trouxe à tona uma nova visão sobre os processos artísticos, bem como a apresentação de uma arte "mais brasileira". No terceiro dia, o músico Villa Lobos subiu ao palco vestindo casaca e calçando em um pé, sapato e no outro, um chinelo. O público vaiou pensando que se tratasse de uma atitude afrontosa, mas depois foi explicado que o artista estava com um calo no pé.
A crítica ao movimento foi severa, as pessoas ficaram desconfortáveis com tais apresentações e não conseguiram compreender a nova proposta de arte. Os artistas envolvidos chegaram a ser comparados aos doentes mentais e loucos, assim como no filme. A Semana de Arte Moderna, só foi reconhecida como um dos marcos mais importantes na história cultural do Brasil, anos mais tarde (fonte: site Toda Matéria/Semana de Arte Moderna).
Voltando ao filme "Nunca deixa de lembrar", o diretor afirma através da narrativa do professor, que tudo que é verdade é lindo. Nele a Arte Moderna rompe com o tradicionalismo imposto pelo padrão de beleza e de informação rasa que favorecia somente a classe política dominante. O regime socialista soviético oferece: fama, dinheiro, conforto e poder, para que o pintor expresse, em grandes murais, apenas o que lhe convém, mas Kurt Barnet (Tom Schilling), é o artista que resiste a estas tentações, fugindo daquele sistema opressor, para buscar a sua verdade. Ele representa a pureza e beleza da arte, que persevera, resiste e se propaga para as futuras gerações.
De que maneira a arte toca o seu coração? Qual a verdade que ela expressa? Isto nos leva a refletir sobre o momento político em que estamos vivendo, aqui, na terra brasilis. Como os governos tem investido em políticas públicas de incentivo à produção artística nestes últimos 100 anos, desde a Semana de Arte Moderna? A liberdade proclamada em 1822 e reivindicada pela classe artística em 1922, está sendo respeitada e incentivada pelo poder público em 2022? Pense nisso quando fizer suas escolhas, no próximo mês, quando digitar seu voto nas urnas. Ainda é tempo de conhecer as propostas de cada candidato sobre a atenção que darão à cultura. Vote na arte.