A hemeroteca digital da Biblioteca Nacional está abandonada, sem as atualizações prometidas e necessárias de três anos para cá. Revistas em acervo físico não foram disponibilizadas para amplo acesso pela internet. As consultas dão a volta ao mundo, por mais paradoxal que seja, em face da condução terraplanista da entidade centenária. Urge que a junção da preservação histórica com a tecnologia moderna vá para além do discurso midiático, ainda mais em período no qual, supostamente, estaríamos comemorando uma importante data.
As revistas e jornais lá alocados formam importante acervo em contraponto com o registro dos dias correntes que levará o historiador do futuro a muitas barreiras para estabelecer o curso dos acontecimentos. Redes sociais são receptáculo de inverdades e invenções. Beiram a especulação ficcional cinematográfica. Tal contraponto é ilustrado pela quase coincidência de duas efemérides recentes.
A princesa Diana queria ser rainha e até o filme "De volta para o futuro, parte II" assim previu, conforme notícia estampada na capa do fictício jornal de 2015. O líder soviético Gorbatchov promoveu talvez a maior mudança da geopolítica mundial, depois da própria constituição da União Soviética após a revolução bolchevique. Mais do que mistura de ficção e realidade, ambos simbolizaram oposições e concordâncias típicas dos governos e Estados que representaram. Ambos morreram num mesmo e icônico final de agosto, separados por um dia e 25 anos. Fica o registro para combater um pouco da pós-verdade que se constrói.
O autor é pesquisador da Unesp-Rio Claro.