Cultura

'A Morte de Vivek Oji'

Yasmin Santos
| Tempo de leitura: 3 min

"Queimaram o mercado no dia em que Vivek Oji morreu." É assim que se inicia e encerra o primeiro capítulo do livro de Akwaeke Emezi. A narrativa inverte a ordem do mistério, revelando já em seu título -"A Morte de Vivek Oji"- o fim do protagonista. Com o fato revelado, nos resta descobrir como e por quê.

Vivek é uma pessoa não binária, ou seja, que não se identifica com o binarismo de gênero homem-mulher -condição que é compartilhada com Emezi, que se identifica como ogbanje, palavra da cultura igbo que se refere a um terceiro gênero. Por sua condição e o prenúncio de sua morte, imaginamos estar diante de uma história sobre fobia dos LGBTQIA . Não só.

Vivek se comporta como um homem diante da família e de outra forma quando está com amigos. Sua morte ocorre com sua feminilidade à mostra numa de suas raras saídas às ruas de Ngwa. No livro, o personagem não se importa de ser tratado pelos pronomes "ele" ou "ela" - talvez uma forma de traduzir o pronome "them" da língua inglesa.

No segundo capítulo, a narrativa apresenta o seio familiar de Vivek por meio de fotos banais e entre cortes abruptos, como se estivessem sendo passadas em um projetor. Nostálgicas, as fotos mostram o toque das mãos, um passeio em família, um menino segurando colares junto ao peito. É um pequeno álbum sobre o luto e o amor que os cercam. No mesmo dia em que Vivek nasceu, o coração de Ahunna, sua avó paterna, parou de bater. A morte da matriarca instalou uma dor incapacitante ao redor do recém-nascido - e que o acompanhou por toda a vida.

A narrativa avança e retorna, ora sendo guiada por um narrador onisciente, ora por Osita, primo e posterior amante de Vivek. O protagonista narra pequenos capítulos ao longo livro, que mais parecem bilhetes, como alguém que partiu e nunca foi capaz de dizer. Não por acaso, Vivek é quem tem menos espaço para narrar sua própria história em primeira pessoa.

A família assiste ao flerte de Vivek com a feminilidade de forma preocupada. Sua mãe teme que passem a ver o jovem como mulher na rua e, ao descobrirem a verdade, queiram machucar o filho; seu pai prefere dizer que ele sofre de algum distúrbio psicológico. O assunto permanece silenciado. Ninguém nunca perguntou o que Vivek é ou gostaria de ser.

Ele cresce como uma criança incompreendida, se recusa a cortar os cabelos; prefere dormir no quintal, com as galinhas, do que na própria cama; e passa a sofrer espasmos mentais, como se cérebro se descolasse da realidade.

Sua morte física, não é fruto de um assassinato, trágico fim de tantas pessoas LGBTQIA mundo afora. Morre por acaso, por acidente. Dois escritores, ambos consagrados com o prêmio Nobel de literatura, inspiraram a estrutura e a condução da história, Gabriel García Márquez e Toni Morrison. Do autor colombiano, Emezi se inspirou no quebra-cabeças narrativo de "Crônica de uma Morte Anunciada". De Morrison, o tom memorialístico que permeia a narrativa de ódio e paixões de "Amor". Tanto Gabo quanto Morrison constam nos agradecimentos finais de Emezi.

"A Morte de Vivek Oji" é um drama familiar em que vida e morte se misturam, uma bela mostra da proeza literária de Akwaeke Emezi.

O LIVRO

Avaliação: Ótimo

Preço: R$ 69,90 (80 páginas)

Ebook: R$ 49,90

Autor: Akwaeke Emezi

Editora: Todavia

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