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Escolhas

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

A torneira seca (mas pior: a falta de sede). A luz apagada (mas pior: o gosto do escuro). A porta fechada (mas pior: a chave por dentro) - José Paulo Paes

Pensemos em uma casa. Pensemos sim e muito. Afinal, uma casa é mais do tudo de que precisamos. É ninho, acolhimento, paredes, telhado, proteção. Também jardim colorido e janelas abertas convidando a vida ensolarada a entrar. Às vezes, casas iluminadas escurecem. Nesta, agora imaginada, a vida deixou de ser o que era. Água não existe mais. Tem coisa pior? Sim, a falta de sede. Luz há muito deixou de existir. Tem coisa pior? Sim, acostumar-se ao escuro. E as janelas, antes escancaradas, agora recusam o sol.

Nada pode ser pior do que permanecer em casa assim, tão seca e tão escura, sobretudo quando a porta trancada está com a chave por dentro. Abri-la, portanto, é só questão de querer. Sair para buscar outra morada desejável. Por que, então, o ato libertador não acontece? Por que continuar convivendo com aridez e trevas?

Desfazer é tão importante quanto fazer. Recomeçar, quanto começar. A folha em branco é convite para nova história. Só que uma nova história não é garantia de nada. Pode ser a nosso favor, mas contra também. Tudo dependerá das escolhas que fizermos. Freud mostrou-nos que a "construção do eu mesmo" pode ser ativada por dois processos de escolha: o da imposição e o da identificação.

Construo-me por imposição, quando me deixo comandar por terceiros, não faço o que quero, mas o que exigem de mim. Não há alegria nesse fazer imposto, tampouco identificação, apenas ansiedade buscando aplauso e aceitação. As ofertas, os convites, os acenos sociais são tentadores. Qualquer descuido, afastamo-nos de nós mesmos e nos entregamos ao que não somos. Construo-me por identificação quando seleciono o que me convém e descarto o que me for tóxico. Depois de refletir, escolho o que me alegra, me realiza e o mais com que me identifico. Combino as peças escolhidas, ajusto tamanho e cor, para compor um mosaico de mim mesmo. Quero me construir o mais humano e empático possível. Afinal, preciso dar um sentido à minha vida e outro que não esse não consigo ver. Preciso estar em harmonia, pois só assim ao outro poderei servir.

Se me construo por identificação, os impulsos vêm da minha interioridade e não de fora como ocorre no processo de imposição. Estou, na medida do possível, no comando de mim mesmo. Descontada a relatividade de tudo, serei eu o timoneiro da minha nau. Quero luz. Quero água. Quero janela. Quero jardim. Quero porta aberta. Quero casa nova inundada de vida. Quero ser mais humano. Ser apenas eu e ninguém mais.

O autor é professor de redação, autor de obras didáticas e ficcionais.

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