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Os nossos desafios

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Somente Você, eu e o restante da nossa espécie somos capazes de refletir sobre o passado distante, imaginar o futuro e compreender o que nos aguarda. A morte é um pressentimento que vive dentro de nós, um presságio que aprendemos a sufocar, a aceitar, a não levar a sério. Entretanto, este fato perturbador que o futuro nos reserva, está sempre presente. Mas, é claro que, em nome da sanidade, cuidamos da vida cotidiana e direcionamos nossas energias para outras coisas. Porém, o reconhecimento de que nosso tempo é finito nos acompanha e nos ajuda a moldar as escolhas que fazemos, os caminhos que percorremos e os desafios que temos que enfrentar.

Cabe aqui fazer uma analogia da nossa existência com a de uma semente. A semente possui o dinamismo da germinação e multiplicação. Lançada à terra se decompõe, na verdade, se transforma para fazer brotar nova planta. Destruir para renovar. Morrer para renascer. Na sua ínfima aparência ela morre sem jamais desaparecer, a semente porta, em seu seio, a eternidade. Depois de brotar, a semente desaparece, torna-se impossível detectá-la. Todavia, ela estará sempre presente, continuamente provendo a árvore madura com sua essência, mesmo sem haver prova da sua existência.

Foi assim, também, quando a causa de toda criação gerou nosso Universo, a impressão que temos é que esse Criador, como a semente, sumiu. No entanto, da mesma forma que ao olharmos para o interior da fruta encontramos a semente, se olharmos para o interior do homem vamos encontrar um sopro desse Criador. Está no Livro do Pregador em Eclesiastes, capítulo 3, versículo 11: "...Deus também pôs a eternidade no coração do homem...". E esse é o nosso primeiro desafio: crer que somos eternos. Se pudéssemos identificar o que faz um conjunto de partículas (carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo, enxofre), desencadear o fogo da vida, daríamos um passo significativo rumo à compreensão da origem da vida e da sua onipresença no cosmo. Afinal de contas, como pode esse turbilhão de átomos e moléculas que formam o nosso corpo, como pode essa matéria estúpida que só sabe vibrar ao sabor da química, pensar e sentir? Há algo em nós além do corpo físico.

Mas, crer nisso é difícil já que nos encontramos numa realidade de escuridão ao invés de Luz; dor ao invés de alegria; sofrimento ao invés de serenidade. Ataques de pânico ao invés de paz de espírito; mentiras ao invés de verdades; caos ao invés de ordem; vazio ao invés de plenitude. Por isso nossa tarefa, queiramos ou não aceitar, é transformar essa realidade e passar a colaborar com o processo de criação, pois, o presente do livre arbítrio nos transformou em coparticipes desse processo de criação. Temos que deixar de ser algo oposto ao Criador e transformar esse mundo imperfeito e escuro naquilo que ele foi idealizado para ser, um mundo perfeito e cheio de Luz. E esse é o nosso segundo desafio: fazer todo o possível para sermos produtivos e tornar nosso mundinho melhor hoje do que ontem.

Ao ser produtivo, o ser humano se torna um benfeitor, um colaborador da vida. A propensão ao trabalho e à realização é um componente essencial da vida. A natureza humana detesta receber alguma coisa em troca de nada. Esse segundo desafio também significa fazer uma fogueira ao invés de vestir um casaco de peles. Simplesmente significa reconhecermos que não somos indivíduos autossuficientes; que todos fazemos parte de uma comunidade mais ampla e por consequência, somos responsáveis uns pelos outros.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica Faculdade de Engenharia da Unesp–Bauru.

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