O fenômeno reafirmado do movimento político identificado como 'bolsonarismo', por ser relacionado ao presidente Jair Bolsonaro (PL), que determinou sua expressiva votação no primeiro turno das eleições, não é, na avaliação da cientista política Juliana Fratini, exatamente uma novidade, pois já esteve presente em outros momentos da história política brasileira. Assim como ela avaliou que o fortalecimento da ala direita do espectro político também não é uma particularidade brasileira. Juliana, que é Mestre e doutoranda pela PUC-SP, especialista em Globalização e Cultura pela FESP-SP, foi a entrevistada desta sexta-feira (7) do programa Café com Política.
Sobre o resultado das eleições no primeiro turno para presidente da República, considerando o expressivo apoio recebido pelo presidente Bolsonaro, que demandou a realização do segundo turno, respondendo ao economista e apresentador Reinaldo Cafeo, a cientista comentou que os valores defendidos por esta ala ideológica já estiveram presentes em outros momentos políticos do Brasil. "As características do bolsonarismo, que são a defesa da pátria, família e de uma suposta liberdade, de uma maneira um pouco mais autoritária, entendo que são traços da propriedade brasileira. Já se mostraram, por exemplo, no período da ditadura militar (1964 a 1985)", indicou.
FALTA FIRMEZA DE LÍDERES
O fortalecimento da ala direita do espectro político também não é uma particularidade brasileira, segundo ela, que avaliou a proximidade do bolsonarismo com movimentos de direita ao redor do mundo. "Como vemos após a eleição, o forte racismo contra nordestinos é um problema xenófobo, sobretudo por terem votado em maior proporção no candidato do Partido dos Trabalhadores", comentou.
Embora tenha ocorrido um posicionamento do próprio presidente contra estas manifestações, para a cientista política, tanto Bolsonaro quanto o ex-presidente Lula deveriam ser mais firmes na crítica a essas e outras reações antidemocráticas. No caso de Lula, por exemplo, nas questões ligadas às diferenças de religiosidade.
MAIORES LIDERANÇAS
Questionada por Kleber Santos, especialista em Marketing Político e Comunicação Eleitoral, sobre o alto índice de apoio de eleitores ao PT e a Lula, principalmente entre a população menos esclarecida, apesar do envolvimento com os casos de corrupção, Juliana Fratini considerou a trajetória política de Lula e o fato de que a corrupção também ocorreu em outros governos. "Ele (Lula) possui um recall muito forte, é uma das maiores lideranças ocidentais. Construiu sua imagem e expressão enquanto liderança nos últimos 30 anos, desde o período da redemocratização. Ele é a principal liderança popular brasileira e se consolida no campo da esquerda. O PT é um partido extraordinariamente grande, todos os outros grandes partidos que tiveram lideranças, ou não, de características mais populista, também se envolveram em crimes de corrupção e atividades ilícitas. Também houve problemas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, houve problema de corrupção recente no governo Jair Bolsonaro. Agora, o que eu entendo é que o PT e Lula sempre tiveram uma narrativa de ética, de moralmente superior, preocupados sempre com a justiça social. Então, é uma grande decepção para os brasileiros que durante seu governo tenha havido crimes de corrupção. Aliás, da parte da esquerda a preocupação maior sempre foi a justiça social, ao passo que partidos como o PSDB, que fazia a dualidade com PT, antes do PL (partido de Bolsonaro), sempre teve uma postura republicana, no sentido de abrir mão de soluções imediatas para pensar no futuro, enquanto o PT sempre teve a perspectiva mais democrática no sentido de inclusão", explicou.
FOME X CORRUPÇÃO
Mas a cientista política também considerou a forma como a sociedade absorve valores de acordo com sua própria realidade, como o combate à corrupção e justiça social, por exemplo. "A defesa da corrupção sempre foi mais forte entre pessoas mais esclarecidas, as menos esclarecidas querem justiça social, elas estão passando fome. Então, toda a narrativa relacionada à eliminação da pobreza, que vem do campo lulista, cabe muito mais às pessoas que estão passando necessidades. O sentimento intrínseco do eleitorado é: o que é mais importante? Acabar com a fome, com a miséria ou com a corrupção? É disto que se trata!", concluiu.
Reinaldo Cafeo arrematou o diálogo afirmando que o ideal para o País é ter um governante que acabe com a fome e não admita e também combata a corrupção. Ou seja, não tendo que optar entre uma coisa e outra se ambas são ruins.