Todo dia cumpria o rito do gole alcoólico. Pedia a mesma cachaça e uma estranha limonada. Os olhos dele acompanhavam a bebida, formando marcas líquidas que se sobrepunham quando ele devolvia o copo ao seu lugar. O cigarro aceso se movia queimando entre os dedos pretos e longos de unhas mal aparadas. O polegar nervoso agitava o filtro e as cinzas caíam sobre o vidro que cobria os salgados à venda. Final de tarde. O bar, como de costume, lotado. Mesas conversavam em voz alta à medida que os copos esvaziavam-se. Agitação entrecortada de tosses e fumaças de cigarro. O balconista gritava preços. A alegria etílica prolongada se misturava com a impaciência dos pedidos. Jovens, velhos do bairro, desocupados, funcionários em final de expediente. E o homem magro de cabelos brancos e mão preta, arcado, sem tirar o cigarro do meio dos dedos, dava três ou mais tragadas seguidas, sentava seus óculos no balcão, coçando a verruga da orelha de feridas gotejantes de pus.
Uma fita adesiva transparente, enrolada na haste até se encostar à orelha, mantinha a armação em insuspeito equilíbrio. Há meses distante de casa, os punhos e o colarinho da camisa começavam a puir. Sobre os ombros, um paletó azul insinuava contraste de nobreza. Ele desabotoava, tamanha melancolia apertada. Casa de um, favor de outros. Memórias de um depósito com vasilhame esquecido. Nunca soube seu nome. Contudo, impossível ignorá-lo.
A noite se aproximava inocente, diluída num sossego humilde. Ele permanecia num reticente de a vida ser uma viagem. Sim, uma viagem que recusava partir com a bagagem. O abraço demorado da avó que, na bondade das horas, se açucarava pelos netos. As flores semiabertas à espera das abelhas, a festa junina crescida à boca do fogo, fogão, pipoca e quentão. A mãe extenuante de fé sobressaltada à espera de um milagre. A casa com alegria preenchida dos passos da neta. O olhar comprido do avô. Os domingos abertos ao sol. O ciúme rasgado que morde como dentada de cobra, a raiva de garras por quem ri de quem chora, aquela surda desunião de parentes que envelhece com as panelas.
O amor cortante da cabeleireira comprida que dispensava sua mão de acariciar. A fidelidade canina em lambida festiva, as dúvidas acumuladas lhe roendo restos de raciocínio, a medalha azinabrada da alegria profunda na piscina rasa, a mulher que, de tanto deitar no capim da rua, facilmente criava barriga, o cheiro de maternidade. A mania teimosa de insistir, vassoura, sabão e balde, em faxinar a casa que não é nossa. O nariz desdenhoso, desprezador. O corpo experimentado na dor em remédios que tratam o corpo, jamais a alma.
Das coisas que tanto desejamos e o que, um dia, legamos. Dos produtos que se emprateleiram em estratégico brilho persuasivo da vida-crediário, do relógio sem tempo de usar, do porta-retratos deixado na mesinha da sala esperando olhos de admirar. Dos papéis amarfanhados, amarelados reclamando desprendimento e inutilidade ao que fomos. Legam-se o cabelo liso, a cor dos olhos, o início, o fim, as gotas de chuva e o espaço entre elas que nada molha. Lega-se, e nem pense em reclamar, a irmã que, companheira de sangue, é ausente de irmandade afetiva.
Como, pois, me despedir da engenharia do que construímos? Como partir sem a memória do que somos? Dessa forma, a mente reclamar saudade. Daí, a lembrança gritar com o tempo. Seu duelo era este: esta vida compreender. Por isso, as memórias, como olhos de criança, poderiam não envelhecer, assim como uma folha miúda sempre verde na beira do rio.
Levantou devagar, pagou sem se despedir pousando os olhos no piso gasto. Amanhã, no mesmo bar, há de ser outro dia.
O autor é professor de Língua Portuguesa.