O deputado federal eleito Guilherme Cortez (PSOL) relatou os bastidores da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a emoção do presidente durante a apuração e a mobilização da juventudade no segundo turno. Em entrevista exclusiva nesta segunda-feira, 26, ao programa A Hora É Essa!, apresentado pelo jornalista Corrêa Neves Jr, na Rádio Difusora, Cortez também analisou o crescimento da votação de Lula em Franca, destacou a atuação de Geraldo Alckmin (PSB) e André Janones (Rede) na campanha e falou sobre a expectativa de ampliar a interlocução com o governo federal para levar recursos e investimentos à região.
Eleito com 275.450 votos, Cortez foi convocado pela campanha petista para atuar no segundo turno. Agora, deixará o mandato de deputado estadual para assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados, em Brasília, como representante de Franca e região.
Ao recordar o momento em que chegou ao hotel onde Lula acompanhava a apuração, Cortez classificou o resultado como histórico. “Olha, quem diria que eu, com 28 anos, ia fazer parte de uma grande vitória da esquerda brasileira e do presidente Lula. Ontem foi um dia muito importante”, afirmou.
Clima de apreensão antes da apuração
Cortez contou que veio a Franca para votar e, por volta do meio-dia, retornou a São Paulo (SP), onde acompanhou a apuração dos votos ao lado de Lula. Durante o trajeto, segundo ele, começaram a chegar notícias de supostos crimes eleitorais cometidos por prefeitos bolsonaristas, como Ricardo Nunes, da Capital, que teriam dificultado o transporte coletivo de eleitores para tentar reduzir a vantagem de Lula.
Para o deputado eleito, os episódios sinalizavam desespero da campanha de Flávio e já indicavam que o petista venceria. Ele afirmou que levantamentos internos realizados desde a noite de sexta-feira apontavam uma vitória com margem superior à projetada. “Para nós, aquilo já era um recado de que venceríamos a eleição”, disse.
No hotel, Cortez admitiu que havia preocupação diante do que classificou como injustiça e irresponsabilidade, inclusive por parte do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que, na avaliação dele, teria colocado a eleição em uma situação de incerteza sem precedentes desde a redemocratização.
Apesar da apreensão, Cortez afirmou que não duvidava da vitória. Como justificativa, citou imagens de brasileiros votando no exterior, a redução da abstenção e a participação de idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
“Não tinha ninguém preocupado, porque as imagens que recebemos desde o começo do dia, a apuração no exterior mostrando recordes de votação em praticamente todos os países do mundo onde tem brasileiros votando, a redução da abstenção, as imagens sem precedentes de idosos com 100 anos, 90 anos, com mobilidade reduzida indo votar, pessoas atravessando o mundo e o Brasil para votar, davam conta de que estávamos vendo uma mobilização democrática sem precedentes”, afirmou.
Lula estava emocionado, diz deputado
Ainda sobre Lula, Cortez explicou que o presidente costuma acompanhar os primeiros momentos de apuração com um grupo menor, formado apenas por familiares e auxiliares próximos, antes de se reunir com parlamentares e lideranças de movimentos sociais.
Ao encontrar o presidente, disse ter percebido que ele estava muito emocionado, ao lado da primeira-dama, Janja. Segundo Cortez, Lula considerou aquela a campanha mais bonita de sua trajetória política.
O deputado também destacou a movimentação na avenida Paulista, em São Paulo, na véspera da votação. Segundo ele, foi apontada pelo próprio presidente como maior do que a registrada nas Diretas Já. “Então digo a você que ninguém no nosso hotel de apuração, sequer o presidente Lula, duvidou quando chegamos lá de que venceríamos essa eleição”, declarou.
Durante a entrevista, Corrêa Neves Jr. perguntou se Cortez temeu uma derrota quando Flávio Bolsonaro assumiu a liderança nos primeiros momentos da apuração. O deputado eleito respondeu que não. “Na minha cabeça não passou, tenho certeza de que na do presidente Lula também não. Não posso responder pelas mais de cem pessoas que estavam lá acompanhando, mas eu tinha certeza de que nós passaríamos”, afirmou.
Lula ampliou votação em Franca
Ao analisar os números eleitorais, Cortez destacou o crescimento da votação de Lula no segundo turno, tanto no país quanto em Franca. Na cidade, o petista recebeu cerca de 16 mil votos a mais em relação ao primeiro turno, enquanto o adversário ampliou sua votação em aproximadamente 9 mil.
“Não é que Flávio teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, ele teve 3,8 milhões a mais. É que o Lula fez 10,5 milhões de votos a mais”, afirmou.
Cortez avaliou que a vitória de Flávio Bolsonaro no estado e no interior de São Paulo era esperada, mas destacou a mobilização de apoiadores de Lula em Franca. Segundo ele, não via manifestações semelhantes na cidade desde que passou a morar no município, há dez anos.
“Em Franca, cidade que há alguns anos dá vitórias folgadas para a ultradireita, eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo. É claro que eles terminaram na frente. Agora, nós aumentamos muito mais do que eles, quase o dobro”, disse.
Cortez destaca Alckmin e Janones
Cortez elogiou a postura do vice-presidente Geraldo Alckmin, a quem Lula deu a palavra antes de iniciar seu pronunciamento, num sinal de respeito e deferência. O deputado também destacou a atuação de André Janones na campanha. “Ele foi a pessoa que teve o maior papel nessa eleição, sem sombra de dúvida. Tiro meu chapéu, uma figura boníssima, que conheci há alguns meses. Vou ser colega de bancada, porque o Janones é deputado da Rede. O exército do Lula, liberado por Janones, e a juventude brasileira”, declarou.
Cortez lembrou que iniciou sua militância fazendo oposição aos governos tucanos, mas que, nesta eleição, trabalhou ao lado do vice-presidente, que, no passado, foi do PSDB. “Posso dizer que, diferenças à parte, que são democráticas, o Alckmin cumpriu um papel muito importante, absolutamente digno, num momento em que a nossa política tem pouca dignidade”, declarou.
Cortez avaliou o resultado como uma vitória cívica da democracia brasileira, com protagonismo de uma nova esquerda. Ele recordou uma reunião com jovens após o primeiro turno, quando, segundo seu relato, Lula chegou abatido e deixou o encontro entusiasmado com a mobilização da juventude. “Isso produziu as maiores manifestações democráticas e foi empoderando bem mais o presidente Lula”, afirmou.
Deputado promete ampliar interlocução com o governo
O deputado afirmou que alcançou o objetivo de chegar a Brasília como integrante da base governista, em vez de atuar na oposição, e disse que espera ampliar o diálogo com o governo federal. “Fico muito feliz de que com o governo Lula vamos ter muito mais interlocução. Vamos poder falar do que importa. Não vamos precisar ficar enxugando gelo”, disse.
Cortez também afirmou que o governo Lula continuará sendo o que mais investe na região e defendeu que a presença de um representante alinhado ao governo federal poderá ampliar a capacidade de articulação por recursos. “Mesmo que a maior parte dos votos da região não tenha sido para o presidente Lula, o presidente Lula é o presidente que mais trouxe benefícios para a nossa região, inclusive para a cidade de Franca, para a área da saúde. Mas, apesar disso, sem ressentimento, sem rancor nenhum, porque temos que governar para todo mundo”, afirmou.
O deputado relembrou ainda a rotina intensa durante a campanha, com viagens entre diferentes regiões do país no mesmo dia. “Teve um dia que passei por três regiões do Brasil. Acordei em Belo Horizonte (MG), almocei em Brasília (DF) e jantei em Florianópolis (SC). Mas tudo valeu a pena”, concluiu.
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